Por que o nome Jeová está correto?
- Sociedade Bíblica Trinitariana do Brasil

- 9 de set. de 2025
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Pode-se dizer tranquilamente que a presença do nome de Deus em hebraico, Jeová, nas traduções da Bíblia da Reforma, não tem sido bem vista no cristianismo por muitos séculos. Mas, ultimamente, a pressão contra esse nome no mundo evangélico se redobrou significativamente. Isso se deve basicamente a dois fatores: a multiplicação do número de versões e traduções bíblicas na atualidade que apresentam outras propostas quanto à transliteração ou tradução do nome de Deus, e o avanço entre os evangélicos de um movimento fortemente influenciado pelo judaísmo messiânico. Por sua vez, a Igreja católica romana tem a questão, por assim dizer, completamente resolvida, dado que nunca aceitou a vocalização “Jeová” e, nos últimos dez anos, estabeleceu como norma que apenas se use o nome “Senhor” em sua liturgia.
Há alguns anos, publicamos um artigo no qual se explicavam as razões pelas quais, na revisão da Reina-Valera 1909 que está sendo realizada, a Sociedade Bíblica Trinitária iria manter o nome “Jeová”. [1] Às razões expostas ali, com este artigo queremos acrescentar por que consideramos que o nome Jeová é o nome de Deus correto e verdadeiro nas Escrituras em hebraico.
Essa afirmação se baseia em duas considerações fundamentais. A primeira, que questionar a vocalização do nome Jeová significa passar por cima da autoridade da vocalização massorética do Antigo Testamento hebraico, o que afeta diretamente a doutrina bíblica da preservação do texto inspirado. A segunda, que o nome Jeová se explica perfeitamente, do ponto de vista do hebraico, tanto quanto ao seu significado como às diferentes alterações que a vocalização apresenta no texto massorético.
A primeira dessas razões, a preservação das vogais hebraicas do texto bíblico, mereceria, por sua importância e por ter produzido desde os tempos da Reforma uma imensa quantidade de literatura, ser tratada em outro artigo separado. A segunda dessas razões pode ser tratada aqui apenas em parte, visto que não se pode fazer um estudo pormenorizado das questões relativas às diferentes alterações vocálicas do nome Jeová.
De todo modo, neste artigo pretendemos apresentar razões suficientes para mostrar que Reina e Valera estiveram corretos ao apresentar o nome de Deus no Antigo Testamento como Jeová.
A decisão de Reina e Valera, em seu contexto
Os tradutores da Bíblia em espanhol no tempo da Reforma, Casiodoro de Reina e Cipriano de Valera, tomaram uma clara posição a favor do nome “Jeová” (originalmente em suas versões, Iehoua). É preciso perceber a importância dessa decisão dos tradutores, pois, com isso, eles se colocavam decididamente contra a corrente da tradição de 1600 anos, iniciada pela Septuaginta (LXX) e continuada pela Vulgata, de verter o nome de Deus no Antigo Testamento como “Senhor”. As traduções pré-protestantes, como a de Wyclif (1395), mantiveram essa tradição, assim como fizeram também as primeiras traduções da Reforma, como a de Lutero em alemão (1534). Reina e Valera também não seguiram versões em espanhol das quais se serviram para sua tradução, como a do Antigo Testamento de Ferrara (1555) ou a tradução dos Salmos de Juan Pérez de Pineda (1557), que verteram o nome de Deus como “A.” (de Adonai) e “Senhor”, respectivamente.
No entanto, as primeiras traduções da Reforma, sem dúvida baseadas em uma nova apreciação da autoridade do texto das Sagradas Escrituras, começaram a reconsiderar a questão do nome de Deus no Antigo Testamento e, embora lhes fosse difícil corrigir a tradição de traduzir “Senhor”, começaram sim a introduzir na Bíblia o nome “Jeová” ou sua tradução precisa. Em inglês, a tradução de Tyndale (1530) transliterou para “Iehovah” em Êxodo 6:3. Em 1535, a tradução ao francês feita por Olivétan traduziu o nome como “l’Éternel” (o Eterno) em Êxodo 3:15-16,18, e também transliterou para “Jéhovah” em Êxodo 6:3. Em 1539, a primeira versão autorizada em inglês, a chamada Great Bible, o transliterou duas vezes (Salmo 33:12 e 83:18), enquanto a tradução dos refugiados ingleses em Genebra, a Geneva Bible (1560), usou “Jehovah” quatro vezes (Êxodo 6:3, Salmo 83:18, Jeremias 16:21 e 32:18). Posteriormente, a Versão Autorizada, ou Bíblia do Rei Jaime, transliteraria “Jeová” em quatro ocasiões (Êxodo 6:3, Salmo 83:18, Isaías 12:2 e 26:4) e o manteria também três vezes em nomes compostos de lugar (Gênesis 22:14, Êxodo 17:15 e Juízes 6:24).
Portanto, a tradução de Casiodoro de Reina, a Bíblia do Urso, datada de 1569, tem grande importância no conjunto das Bíblias da Reforma, por ser a primeira totalmente consistente ao verter o nome de Deus no Antigo Testamento como Iehoua (6715 vezes). Mais tarde, a mesma consistência se verá também na reedição da Bíblia de Genebra feita por Teodoro de Beza em 1588, que revisou a versão feita por Calvino (a Bíblia da Espada) em 1560: a revisão de Beza traduziu de maneira totalmente consistente o nome “Jeová” como “l´Éternel” (o Eterno) em todas as suas ocorrências no Antigo Testamento. O nome “Éternel” se tornaria, assim, durante séculos, o nome próprio e característico dos protestantes para falar de Deus.
Razões de Reina e Valera para usar “Jeová”
A generalização do nome “Iehova” foi uma novidade tão importante que tanto Reina como Valera tiveram de justificá-la devidamente. “Retivemos o nome Iehouá não sem gravíssimas causas”, dizia Reina no prólogo da Bíblia, para em seguida rejeitar a ideia judaica de que seria ilícito ou uma profanação pronunciar o nome de Deus tal como se encontra na Bíblia.
Reina fez referência à passagem de Levítico 24:11, onde um filho de uma israelita e de um pai egípcio blasfemou o nome de Deus (em hebraico, qālal, que sempre significa “amaldiçoar, blasfemar”; mas traduzido na LXX como eponomazô, que simplesmente quer dizer “nomear ou pronunciar”, dando a entender assim que a pena capital foi porque um estrangeiro pronunciou o nome próprio de Deus).
“Os rabinos modernos, a partir da palavra ‘pronunciar’ (não entendendo a intenção da lei), criaram essa superstição no povo, ser ilícito pronunciar, ou declarar, o sagrado nome, sem perceber que (além de que a intenção da lei era clara pelo caso do blasfemador) depois daquela lei o pronunciaram Gideão, Samuel, Davi, e todos os profetas, e reis piedosos, e finalmente era dulcíssimo na boca de todo o povo, como se vê em todo o discurso da Sagrada história”.
Está claro que a tradução da LXX desse texto de Levítico nos indica a razão pela qual traduziu o nome de Deus como “Senhor” em todo o Antigo Testamento. Segundo Reina, a tradução do nome como “Senhor”, feita pelos tradutores da LXX, deveu-se a essa rejeição, por parte dos tradutores judeus, de que os gentios pronunciassem o nome de Deus. “Mas então”, se poderia objetar, “o que acontece com o uso da Septuaginta pelos escritores do Novo Testamento?” A isso respondeu Reina:
“Eles nunca se encarregaram de fazer versões, nem de corrigir as feitas: mais atentos a negócio maior e mais principal, que era o anúncio da vinda do Messias e de seu Reino glorioso, serviam-se da versão comum, que então estava em uso, que parece ter sido a dos Setenta, porque nela tinham o suficiente para seu principal intento. Outra obrigação tem quem faz profissão de traduzir a divina Escritura, e dá-la em sua integridade”.
Por sua vez, em tom muito menos polêmico e mais didático, Cipriano de Valera também defendeu, no Prólogo de sua versão (1602), o uso de “Jeová”. Principalmente, ofereceu o significado do nome “Jeová”:
“Iehovah é nome hebraico derivado do verbo substantivo ser, e assim Jeová quer dizer aquele que tem ser de si mesmo; o que foi, é e será eternamente, e é o que dá ser às criaturas. Este é o da Essência divina, e incomunicável às criaturas. Iah, tão frequente nos Salmos, e em alguns outros lugares da Escritura, é sua abreviação: e assim é nome próprio da Essência divina, que significa e é o mesmo que Iehovah”.
O propósito principal de Valera pareceu ser afastar a ideia de que seria ilícito para os não-judeus pronunciar o nome Jeová, oferecendo a evidência bíblica dos pagãos que o pronunciaram, “como Labão; Batuel, Faraó, os egípcios, gibeonitas, Rute, Aquis, Hirão, a Rainha de Sabá, Naamã, Rabsaces” (Gn 24:31, 50; Ex 5:2; 10:7, 10, 11; Ex 18:10; Nm 23:17; 24:11, 13; Js 2:10; 9:9; Rt 1:17; 1 Sm 29:6; 1 Rs 5:7; 10:9; 2 Rs 5:11; 19:25, 31).
Como evidência adicional extrabíblica a favor do nome “Iehova”, Valera alega que foi do contato e trato que os pagãos tiveram com os judeus que os romanos idólatras chamaram seu deus principal de “Iove” (ou Iovis, isto é, Júpiter).
Para encerrar essa questão, Valera conclui com uma solene advertência ao leitor para não profanar o nome de Deus, usando-o sem reverência.
Jeová ou Javé?
Apesar de o Texto Massorético do Antigo Testamento manter de maneira uniforme e consistente o nome Jeová (ou Yehová), atualmente normalmente não se considera que seja a forma correta, mas sim que esta seria o nome “Javé” (ou Yahvé).
Desde os tempos dos massoretas (sécs. VII-XI), a pronúncia Jeová foi sempre considerada correta. O primeiro a colocá-la em dúvida, com grande escândalo, foi o escritor judeu Elias Levita, em sua obra Massoret ha-Massoret (1538). Levita foi seguido pouco tempo depois pelo teólogo católico-romano Gilbert Génébrard, em sua Chronologia (1567), que propôs pela primeira vez a pronúncia “Yahve”, baseado no testemunho do século V de Teodoreto, bispo de Ciro, que apontou que os judeus não pronunciavam o nome em sua forma plena, mas que os samaritanos o pronunciavam “Yahvé”, e os judeus “Yah”. [2]
Apesar dessas duas obras, a posição a favor de “Yahvé” permaneceria como minoritária entre os eruditos até o século XIX. Seria o prestigioso hebraísta alemão Wilhelm Gesenius (1786-1842), em sua obra Thesaurus, o primeiro a apresentar a ideia de que as vogais do nome “Jeová” são as do nome Adonai (“Senhor”, em hebraico, e em consonância com a prática judaica de pronunciar Adonai em vez de ler o Tetragrama com sua vocalização, Jeová). Dessa maneira, ficava em aberto a questão de qual deveria ser então o nome original de Deus. Entre outras possibilidades, Gesenius avançou o nome “Yahvé”, baseado no testemunho de Teodoreto. No entanto, Gesenius não descartava completamente o nome “Jeová”:
“Também aqueles que consideram que [Jehova] foi a pronúncia real (Michaëlis in Supplem. p. 534) não estão totalmente sem base sobre a qual defender sua opinião. Assim, as sílabas abreviadas יְהוֹ e יוֹ, com as quais começam muitos nomes próprios, podem ser explicadas de maneira mais satisfatória”.
Como curiosidade, Gesenius também fez referência à semelhança entre o nome “Jeová” e o deus principal dos latinos, “Iove”. A explicação que deu foi a contrária da dita por Valera, ou seja, que foram os pagãos que influenciaram os israelitas e não o contrário. Posteriormente, Gesenius se retrataria completamente dessa ideia, considerando-a uma “perda de tempo”.
Por influência de Gesenius, teólogos alemães como Heinrich Ewald (1803-1875) e Ernst Hengstenberg (1802-1862) popularizaram o uso do nome “Jahweh”, [3] até que se tornou considerado hoje por muitos, talvez a maioria, como o nome original de Deus. No entanto, esse nome ainda enfrenta grandes dificuldades:
a) A maior delas, a falta completa de apoio documental nos textos bíblicos hebraicos, de modo que é inteiramente especulativo.
b) Baseia-se no testemunho de um teólogo cristão, Teodoro de Ciro, que nem sequer sabia hebraico.
c) É preciso considerar que os samaritanos também chamavam a Deus de “Yafeh” (isto é, “o belo”) como uma maneira poética de se referir a Deus, o que também poderia ser apenas uma confusão.
d) Por último, é altamente improvável que os massoretas tivessem ocultado a pronúncia original e verdadeira do nome de Deus, substituindo-a para ser lida pelas vogais de Adonai. Primeiro, pela simples e evidente razão de que a vocalização em ambas as palavras é distinta; e segundo, porque atualmente se reconhece cada vez mais o fato de que os massoretas não eram judeus rabínicos, mas caraítas, uma corrente no judaísmo que sempre reconheceu e usou livremente o nome “Yehova”, como continuam a fazer ainda hoje.
Significado do nome Jeová
Contrariamente ao que se costuma afirmar, o nome Jeová de fato tem um significado concreto. Trata-se de uma forma nominal (porquanto é o nome próprio de Deus), mas que tem como raiz o verbo “ser” em hebraico (hāyāh).
Com base nessa raiz verbal, na primeira sílaba (ye-) discerne-se claramente o prefixo da terceira pessoa do singular masculino do imperfeito ou inacabado, o que sugere claramente o tempo futuro.
A segunda sílaba (-ho-) aponta claramente para a forma do particípio masculino singular (cuja forma completa seria hoyeh), sugerindo assim o presente do verbo.
A terceira e última sílaba (-vah) corresponde à terminação da terceira pessoa do singular masculino no perfeito ou acabado dos verbos que terminam com a consoante he (o “h” em português), o que sugere o tempo passado.
O significado do nome Jeová seria, dessa maneira, o composto “Ele será, é, foi”. O nome “Jeová”, portanto, transmite a ideia de eternidade, e esta é a razão pela qual as Bíblias da Reforma em francês traduziram o nome de Deus (em vez de transliterá-lo) como “o Eterno”.
“E Ele foi, e Ele é, e Ele será em glória”. Isso é o que se canta em hebraico em cada serviço nas sinagogas, no hino Adon Olam (“Senhor eterno”). E, claro, é também como a Bíblia denomina o Senhor Jesus Cristo: “Graça seja convosco e paz, da parte daquele que é, que era e que há de vir” (Apocalipse 1:4, RV-SBT).
Última evidência em apoio ao nome Jeová
A seguir, oferecemos uma lista dos nomes teofóricos hebraicos da Bíblia que começam ou terminam como o nome “Jeová” [apenas oferecemos a transliteração; podem ver como estão escritos na Bíblia em português consultando as citações]. [4]
Nomes que começam com “Yeho-” (forma inicial de Jeová):
– Yehoadah (1 Cr 8:36)
– Yehoaddan (2 Cr 25:1)
– Yehoacaz (2 Rs 10:35)
– Yehoás (2 Rs 11:21)
– Yehojanã (1 Cr 26:3)
– Jeoaquim (2 Rs 24:6)
– Joiada (2 Sm 8:18)
– Jeoaquim (2 Rs 23:34)
– Joiaribe (1 Cr 9:10)
– Jonadabe (2 Rs 10:15)
– Jônatas (1 Cr 27:25)
– Jeorão (1 Rs 22:50)
– Josefo (Sl 81:5/6)
– Jeosabeate (2 Cr 22:11)
– Josafá (2 Sm 8:16)
– Jeoseba (2 Rs 11:2)
– Josué (Nm 13:16)
– Jozabade (2 Rs 12:21)
– Jozadaque (1 Cr 6:14)
Nomes que terminam com “-iah” (forma final de Jeová):
– Abias (1 Sm 8:2)
– Aías (1 Sm 14:3)
– Amazias (2 Rs 12:21)
– Atalia (2 Rs 11:3)
– Ezequias (2 Rs 18:1)
– Hilquias (2 Rs 18:37)
– Jedidias (2 Sm 12:25)
– Isaías (1 Cr 3:21)
– Jeremias (Jr 27:1)
– Josias (1 Rs 13:2)
– Micaías (2 Rs 22:12)
– Moriá (Gn 22:2)
– Obadias (1 Cr 3:21)
– Pecaías (2 Rs 15:22)
– Seraías (2 Sm 8:17)
– Semaías (1 Rs 12:22)
– Urias (2 Sm 11:3)
– Uzias (2 Rs 12:21)
– Zacarias (2 Rs 14:29)
– Zedequias (1 Rs 22:11)
À guisa de conclusão, observe como o nome de Deus no Antigo Testamento, “Jeová”, é confirmado pelo nome de nosso bendito Senhor e Salvador, “Jesus”, tanto em hebraico (“Yehoshua”) como em grego (*Iesous*), nome que tem um significado absolutamente glorioso: “Jeová é salvação”.
Traduzido em português por Efraim Mesquita, em: 09 de setembro de 2025.
Notas
[1] “¿Mantendrá esta revisión el nombre Jehová en el Antiguo Testamento?”, disponível em: <https://sociedadbiblicatrinitaria.org/2014/06/24/21/>
[2] Questão XV, em Êxodo 7.
[3] A presença do “w” no nome, corrente ainda hoje em diferentes línguas, é uma característica da transliteração desses autores em alemão.
[4] Esta lista é uma adaptação para o português das tabelas oferecidas por Thomas Ross em “Evidences for the Inspiration of the Hebrew Vowel Points”, disponível em <http://faithsaves.net/inspiration-hebrew-vowel-points/>.
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Artigo excelente!
O nome Jeová tem sido preterido nas versões modernas, mas eis aqui uma argumentação brilhante que prova a legitimidade do Santo Nome.