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A Preservação Providencial de Mateus 5:44: Uma Defesa da Leitura Tradicional

  • Foto do escritor: Rui Alexandre Dias
    Rui Alexandre Dias
  • 14 de mai.
  • 3 min de leitura

Eu estava preparando o sermão de domingo, meditando no ensino profundo de nosso Senhor em Mateus 5:44, quando me deparei com uma conhecida divergência textual: a chamada “parte B” do versículo, ausente em edições do texto crítico, mas preservada na tradição que recebemos na Almeida Corrigida Fiel. Esse encontro não foi apenas acadêmico, mas pastoral, pois nos leva a refletir sobre a fidelidade da transmissão das Escrituras e a confiança que podemos ter na Palavra de Deus que está em nossas mãos.


O texto, conforme preservado na tradição recebida, declara:

“Eu, porém, vos digo: Amai a vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem.” (Mateus 5:44).


A questão levantada por muitos é se a porção intermediária — “bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam” — seria uma adição posterior. Contudo, ao examinarmos as evidências com cuidado, encontramos razões consistentes para afirmar sua originalidade.


Em primeiro lugar, devemos considerar o testemunho da tradição manuscrita. De acordo com os estudos de Wilbur Pickering, essa leitura está presente em aproximadamente 99% dos manuscritos gregos existentes. Tal dado não pode ser tratado com leviandade. A vasta maioria dos manuscritos, preservados ao longo dos séculos e utilizados pela igreja, testemunha de forma unânime a favor da leitura mais longa. Isso aponta para aquilo que podemos chamar de preservação providencial do texto sagrado.


Além disso, embora códices frequentemente exaltados pela crítica moderna, como o Codex Sinaiticus e o Codex Vaticanus, não contenham a expansão, é metodologicamente frágil elevar um pequeno número de testemunhas a uma posição de supremacia absoluta sobre a tradição majoritária. A antiguidade, embora relevante, não é critério exclusivo de autenticidade. A igreja não esteve ausente da história, nem a Palavra ficou restrita a poucos códices isolados.


Por outro lado, encontramos apoio significativo em testemunhas antigas relevantes. O Codex Bezae apresenta uma forma expandida do texto, refletindo uma tradição antiga que não pode ser descartada como mera inovação tardia. De igual modo, o Codex Washingtonianus preserva leituras mais completas em diversas passagens, indicando que a forma longa já circulava amplamente em períodos antigos da transmissão textual.


As versões antigas também corroboram essa leitura. A tradição da Vetus Latina e a Vulgata Latina de Jerônimo preservam claramente a forma longa: “benedicite maledicentibus vobis, benefacite his qui oderunt vos...”, demonstrando que, já nos primeiros séculos do cristianismo, essa leitura era conhecida, utilizada e recebida pela igreja no Ocidente.


No campo patrístico, encontramos testemunhos que refletem esse entendimento. Cipriano de Cartago escreve: “Amar inimigos, fazer o bem aos que nos odeiam e orar pelos que nos perseguem” (Epístola 13), evidenciando a presença dessa tradição. De modo semelhante, Agostinho de Hipona, ao comentar o Sermão do Monte, ecoa a forma ampliada do mandamento, demonstrando que essa leitura estava integrada à vida e ao ensino da igreja.


Alguns argumentam que essa forma seria resultado de harmonização com Lucas 6:27-28. Contudo, tal argumento não é conclusivo. É igualmente plausível — e até mais coerente com o testemunho majoritário — que ambos os evangelhos preservem variações legítimas de um ensino originalmente mais completo de Cristo. Além disso, a hipótese de omissão acidental ou intencional também deve ser considerada, pois a tendência de abreviação textual é um fenômeno reconhecido na transmissão manuscrita.


Do ponto de vista interno, a forma mais longa apresenta um paralelismo marcante, típico da estrutura hebraica: amar, abençoar, fazer o bem e orar. Essa progressão não apenas reforça a autenticidade do ensino, mas também amplia sua aplicação prática, revelando a profundidade ética do Reino de Deus.


Assim, ao reunirmos o testemunho da esmagadora maioria dos manuscritos, o apoio das versões antigas, a recepção patrística e a coerência interna do texto, encontramos fundamentos sólidos para afirmar que a leitura tradicional de Mateus 5:44 representa fielmente as palavras de nosso Senhor.


Mais do que uma questão técnica, isso nos conduz a uma aplicação espiritual: o verdadeiro cristianismo não se limita a amar em teoria, mas se expressa em ações concretas — abençoar, fazer o bem e interceder até mesmo por aqueles que se levantam contra nós. Essa é a contracultura do Reino.



Referências de pesquisa:


• Wilbur Pickering

• Codex Sinaiticus

• Codex Vaticanus

• Codex Bezae

• Codex Washingtonianus

• Vetus Latina (tradição latina antiga)

• Vulgata Latina (Jerônimo)

• Cipriano de Cartago

• Agostinho de Hipona

• Lucas 6:27-28



Rui Alexandre Dias

Pastor da IBBV São Carlos, SP.

 
 
 

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