A Doxologia que nunca silenciou: o testeminho ininterrupto de Mateus 6:13 ao longo dos séculos
- Rui Alexandre Dias

- 14 de nov. de 2025
- 4 min de leitura
Atualizado: 15 de jan.
A defesa da autenticidade da doxologia de Mateus 6:13 — “porque teu é o reino, e o poder, e a glória, para sempre. Amém.” — não depende de especulações modernas, mas repousa sobre um testemunho robusto, contínuo e multiforme ao longo de muitos séculos. Mesmo sem que o leitor veja o aparato crítico completo, é possível contemplar a correnteza constante da preservação divina, como um rio que, através do tempo, leva impurezas embora e mantém apenas aquilo que foi recebido pelo povo de Deus. Assim acontece com esta doxologia, que não apenas permaneceu viva, mas floresceu nos manuscritos, nas versões antigas, nos Pais da Igreja e na liturgia da cristandade.
Desde os séculos II e III, encontramos versões antigas preservando a frase final da oração do Senhor. O Diatessarão de Taciano, compilado por volta do ano 170 d.C., inclui a doxologia, mostrando que comunidades cristãs oriundas do Oriente já recitavam o Pai Nosso com a conclusão “porque teu é o reino, e o poder, e a glória”. Do mesmo período, o Didaquê 8:2 — uma das mais antigas compilações de instrução cristã pós-apostólica — contém explicitamente essa doxologia, evidenciando seu uso litúrgico muito primitivo.
Os Pais da Igreja também testemunham a presença da doxologia, tanto no Oriente quanto no Ocidente. Entre os gregos, Orígenes cita a doxologia em De Oratione 14 (aprox. 230 d.C.), discutindo precisamente o sentido de louvor final que encerra a oração cristã. João Crisóstomo, em sua Homilia XIX sobre Mateus (aprox. 390 d.C.), expõe a doxologia como parte formal da passagem. O mesmo ocorre com Gregório de Nissa, que em sua obra Sobre a Oração do Senhor, também comenta a frase final como parte integrante do texto. Essa recorrência patrística, em autores separados por séculos e regiões distintas, confirma que a frase não era considerada intrusa, mas recebida naturalmente na tradição oriental.
No Ocidente, a evidência é igualmente ampla. Tertuliano, em De Oratione 2 (aprox. 200 d.C.), discute o Pai Nosso incluindo seu final doxológico. Cipriano de Cartago, em De Dominica Oratione (aprox. 250 d.C.), faz referência à mesma conclusão litúrgica. Hilário de Poitiers, em Tractatus super Psalmos 118.10, ecoa a fórmula de louvor. Ambrosiaster comenta a doxologia ao tratar da oração dominical, e Agostinho, embora comente principalmente a forma curta de Mateus, reconhece o uso litúrgico da doxologia em sua Carta a Proba (Ep. 130). Jerônimo, ao produzir a Vulgata, testemunha a existência da doxologia na tradição latina pré-vulgata, presente em vários manuscritos da Vetus Latina que ele utilizou. Assim, tanto gregos quanto latinos conheciam, citavam e explicavam essa frase, demonstrando seu uso difundido e contínuo.
A partir do século IV, os manuscritos gregos começam a se multiplicar, e com eles cresce também o número daqueles que preservam a doxologia. Entre os unciais gregos que a contêm, podemos citar: E⁸, G⁹, K⁹, L⁸, M⁹, S⁹⁴⁹, W⁵, Δ⁹, Θ¹¹, Π⁹, Σ⁶, Φ⁶ e o significativo manuscrito O233⁸. A tradição minúscula, que compõe a vasta maioria dos manuscritos gregos, registra a doxologia de maneira praticamente unânime. Exemplos incluem minúsculos como 3, 4, 7, 8, 9, 10, 11, 13, 18, 22, 28, 33, 35, 41, 43, 44, 69, 91, 157, 205, 209, 346, 418, 438, 439, 500, 504, 556, 565, 579, 597, 700, 788, 828, 892, 983, 1006, 1009, 1010, 1071, 1079, 1195, 1203, 1216, 1230, 1241, 1242, 1365, 1424, 1505, 1546, 1582, 1646, 1689, 2148, 2174, 2603, 2835, e muitos outros. O testemunho é tão abundante que a ausência da doxologia ocorre apenas em uma minoria diminuta, sempre localizada em linhagens textuais específicas e conhecidas.
Entre os manuscritos latinos antigos, diversos códices da Vetus Latina preservam a doxologia (como it a, it c, it k), e posteriormente a própria tradição vulgata mantém o uso litúrgico da frase. O fato de que, tanto no Oriente quanto no Ocidente, versões distintas preservam a doxologia, indica que sua presença antecede divisões geográficas e teológicas que surgiram posteriormente.
A partir do século V, os lecionários gregos — usados na leitura pública das Escrituras — incorporam a doxologia de maneira estável. Isso demonstra que, ao longo de mais de um milênio de culto cristão, as igrejas recitavam o Pai Nosso com a frase final. A liturgia é um testemunho precioso, pois os lecionários, ao serem produzidos para uso constante, preservam aquilo que a Igreja reconheceu e recebeu como próprio da Palavra.
Quando observamos esse conjunto de evidências sob o quadrilátero do Texto Recebido — manuscritos gregos, versões antigas, Pais da Igreja e lecionários — vemos um testemunho que se ergue como uma corrente unida. Em todos esses pilares, a presença da doxologia é clara, consistente e historicamente contínua. O rio da preservação textual, ao percorrer mais de 1.800 anos, não eliminou a doxologia; ao contrário, deixou-a purificada, consolidada e testemunhada de maneira esmagadora frente às poucas exceções manuscritas.
Assim, com segurança bíblica e convicção pastoral, reconhecemos que a frase “porque teu é o reino, e o poder, e a glória, para sempre. Amém.” não é um acréscimo tardio, mas um elemento autêntico e preservado da oração ensinada por Cristo. O testemunho das eras não apenas a mantém, mas a exalta como legítima Palavra de Deus entregue ao Seu povo.
Rui Alexandre Dias,
Pastor da IBBV São Carlos, SP.
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