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Fidelidade à Aliança: por que o 'Sangue de Cristo' é inegociável nas Traduções da Bíblia

  • Foto do escritor: Rui Alexandre Dias
    Rui Alexandre Dias
  • 20 de out. de 2025
  • 3 min de leitura

​A Palavra de Deus é a nossa bússola e o fundamento da nossa vida. Por isso, a fidelidade de sua transmissão e tradução é uma questão de profunda responsabilidade espiritual e pastoral. Temos observado que em algumas versões modernas da Bíblia, a palavra "sangue" – fundamental para a doutrina da expiação e redenção – aparece minimizada ou é substituída por termos alternativos. Este artigo visa examinar esse fenômeno com o devido respeito, mas com a seriedade que o tema exige.

1. A Raiz da Divergência: Manuscritos e Filosofias

As diferenças textuais não são fruto do acaso, mas de duas abordagens distintas:


​A. A Variação Manuscrita (A Causa Textual)

Em algumas passagens, observamos uma omissão significativa. Em Colossenses 1:14, por exemplo, o Textus Receptus (base de nossas Bíblias históricas) declara:

"...em quem temos a redenção pelo seu sangue, a remissão dos pecados,"

Já as versões que seguem o Texto Crítico (como algumas Bíblias modernas) omitem as palavras "pelo seu sangue", deixando apenas: "...em quem temos a redenção, a saber, o perdão dos pecados."

A inclusão da expressão "pelo seu sangue" (διὰ τοῦ αἵματος αὐτοῦ) em Colossenses 1:14 não é um mero acréscimo; ela possui um forte testemunho textual:


​Manuscritos Gregos: A expressão é encontrada na vasta maioria dos manuscritos gregos pertencentes à Tradição Bizantina (o Texto Majoritário), que serviu de base para o Textus Receptus.

Versões Antigas: A frase também é sustentada por antigas cópias latinas e siríacas do Novo Testamento, que atestam a leitura na igreja primitiva.


​Testemunho Patrístico: A antiguidade desta leitura é atestada por pais da igreja. Irineu de Lyon (130-202 d.C.), uma das primeiras vozes da igreja pós-apostólica, já citava o versículo de Colossenses com a inclusão do "sangue", confirmando que esta era a leitura reconhecida em sua época.

Além disso, esta leitura está em perfeita harmonia com o texto paralelo e inegavelmente claro de Efésios 1:7: "Nele, temos a redenção, pelo seu sangue, a remissão dos pecados, segundo a riqueza da sua graça." A inclusão em Colossenses 1:14 fortalece a conexão teológica entre as cartas de Paulo.

B. A Prioridade na Comunicação (Equivalência Dinâmica)

A filosofia de tradução conhecida como Equivalência Dinâmica (ou Funcional) busca traduzir o sentido da mensagem original para que o leitor moderno possa entendê-la com mais facilidade. Em nome dessa clareza, alguns comitês de tradução optam por substituir a palavra "sangue" por frases como "morte de Cristo" ou "sacrifício de Jesus". O receio é que o leitor contemporâneo não compreenda a conexão do "sangue" com o sistema sacrificial judaico do Antigo Testamento.

2. O Risco Teológico da Substituição

Embora a intenção da clareza seja louvável, a substituição da palavra "sangue" é pastoralmente perigosa, pois ela obscurece o aspecto forense (legal/judicial) da nossa salvação:


​O Princípio da Expiação: A Escritura é clara: "Sem derramamento de sangue não há perdão" (Hebreus 9:22). O sangue de Cristo estabelece a Aliança e é o elemento divino que cumpre o requisito de justiça, aplacando a ira de Deus contra o pecado.


​O Preço do Resgate: O apóstolo Paulo nos ensina que fomos comprados por um preço (1 Coríntios 6:20), e Pedro o define como o "sangue precioso, como de um cordeiro sem defeito" (1 Pedro 1:18-19). O sangue é o valor real da nossa redenção.


​A Doutrina Distorcida: Quando se remove o "sangue", corremos o risco de deslizar para uma teologia que vê o sacrifício de Jesus apenas como um "exemplo de amor" – a chamada Teoria da Influência Moral. Essa visão é incompleta e perigosa, pois ignora o poder propiciatório (apaziguador) e redentor do sacrifício de Cristo.


​Exortação Final: Buscando a Fidelidade

O Espírito Santo quis registrar a palavra "sangue" de forma inequívoca nas Escrituras para que fizéssemos as conexões entre a Antiga e a Nova Aliança. O sangue de touros e bodes não podia remover o pecado; somente o "sangue de Cristo", o Cordeiro de Deus, pode nos limpar de toda a iniquidade (1 João 1:7).


​Nosso dever, como aqueles que prezam pela Palavra, é buscar versões que não tenham medo de expressar a plenitude da doutrina bíblica. A exortação não é contra as pessoas ou os tradutores, mas é um alerta para que a igreja esteja atenta aos textos que usa. É na fidelidade das Escrituras que encontramos o poder para Exaltar o Salvador, Equipar os discípulos e Evangelizar o perdido.


​Que a verdade da Palavra de Deus continue a nos guiar.


​Pastor Rui Alexandre Dias

Igreja Batista de Boa Vista (IBBV), São Carlos, SP

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