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A falsa analogia do “Terraplanismo Textual” e a solidez do Texto Recebido

  • Foto do escritor: Rui Alexandre Dias
    Rui Alexandre Dias
  • 27 de nov. de 2025
  • 3 min de leitura

Atualizado: 15 de jan.

Nos últimos anos tornou-se comum, em certos círculos acadêmicos, o rótulo depreciativo que classifica quem defende o Texto Recebido (TR) como “terraplanista textual”. Embora o humor irônico possa parecer inofensivo para alguns, trata-se de uma falácia grave, uma falsa analogia e, acima disso, um profundo desrespeito para com cristãos que, de forma séria e responsável, sustentam uma posição histórica da igreja em relação às Escrituras. Chamar defensores do TR de terraplanistas é uma comparação inválida por um motivo simples: o terraplanismo nega fatos empíricos demonstráveis, enquanto o trabalho textual — seja ele crítico, majoritário ou recebido — não lida com fatos empíricos simples, mas com interpretação de evidências. E interpretação sempre envolve pressupostos, critérios e escolhas teológicas.


O rótulo se torna ainda mais desonesto quando lembramos que nenhum crítico textual trabalha apenas com “fatos brutos”, porque tais fatos não existem no campo textual. Todos trabalham com avaliação, padrões, pesos, filosofias de transmissão, teorias de genealogia e modelos de reconstrução. Isso significa que cada posição textual — seja do reconstrucionismo alexandrino de Westcott e Hort, seja da abordagem eclética moderna, seja da prioridade bizantina ou do TR — depende de pressupostos. Se todos trabalham com interpretação, então é falacioso insinuar que uma corrente é “científica” e outra é “anticientífica”. Na verdade, a diferença não está entre ciência e pseudociência, mas entre modelos distintos de entender a preservação textual.


A falsa analogia se torna ainda mais clara porque o terraplanismo é uma negação da realidade observável, enquanto o TR não nega nenhum dado objetivo do campo manuscritológico. Ele trabalha com a mesma massa documental que outros textualistas utilizam; a diferença não está nos dados, mas na forma como eles são organizados e interpretados. Uma pessoa pode discordar da abordagem do TR, mas dizer que é equivalente ao terraplanismo não é apenas retoricamente ofensivo, mas intelectualmente irresponsável.


Além disso, o Texto Recebido possui uma base que não é improvisada nem frágil. Ele repousa sobre um quadrilátero sólido de preservação, composto pelos quatro pilares que sustentaram a transmissão do texto bíblico por séculos: os manuscritos gregos, as traduções antigas (como a siríaca, latina e outras versões usadas amplamente pela igreja), as abundantes citações patrísticas, e os lecionários (que refletem o uso público e contínuo das leituras bíblicas na adoração cristã). Esses quatro testemunhos convergentes formam a espinha dorsal da preservação providencial reconhecida pela igreja ao longo das eras. O TR, portanto, não é uma construção tardia, mas a síntese e o amadurecimento desse quadrilátero histórico.


Reduzir tudo isso a um slogan ofensivo é ignorar séculos de uso, fé e trabalho exegético. É sugerir que Lutero, Calvino, Knox, Baxter, Owen, Wesley e Spurgeon — todos usuários do texto recebido — seriam equivalentes a terraplanistas. É desonrar não apenas uma posição acadêmica, mas uma tradição espiritual que moldou vidas, igrejas e nações. O debate textual precisa ser conduzido com humildade e respeito, porque trata do livro que Deus inspirou e preservou para o Seu povo. Quando o tom desrespeitoso domina, perde-se a reverência pela Palavra e pela comunhão entre irmãos.


Portanto, defender o TR não é negar ciência textual. Pelo contrário, é reconhecer que a crítica textual não é uma ciência exata, mas uma disciplina interpretativa, e que diferentes modelos convivem porque trabalham com pressupostos diferentes. Chamar um modelo de terraplanismo é falacioso, injusto e espiritualmente tóxico. A igreja precisa de debates claros, não de caricaturas; precisa de luz, não de rótulos; precisa de verdade temperada com graça, não de sarcasmo travestido de superioridade intelectual. O TR segue sendo defendido porque oferece uma visão coerente de preservação, uma base sólida de fé e uma continuidade histórica ininterrupta. Isso merece respeito, não escárnio.


Rui Alexandre Dias

Pastor da IBBV São Carlos, SP.

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Rafael Jesus
Rafael Jesus
30 de nov. de 2025
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