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A Defesa da Perícope da Mulher Adúltera (Jo. 7.53-8.11): uma análise histórico-textual e patrística

  • Foto do escritor: Rui Alexandre Dias
    Rui Alexandre Dias
  • 2 de dez. de 2025
  • 4 min de leitura

Atualizado: 15 de jan.

A passagem da mulher adúltera em João 7.53–8.11 tem sido alvo de contestação por parte de críticos textuais modernos, mas quando examinamos cuidadosamente o testemunho da história da igreja, dos manuscritos gregos e das traduções antigas, percebemos que o peso da tradição cristã afirma a autenticidade do relato. O que se encontra não é uma interpolação tardia, mas uma narrativa recebida, preservada e proclamada por séculos. A Igreja, desde o período mais antigo, reconheceu tanto a profundidade moral e espiritual da passagem como sua coerência com o caráter e a obra de Cristo revelados nos Evangelhos. Um levantamento cuidadoso das evidências, organizado por século, demonstra que a acusação de inautenticidade é insustentável quando confrontada com a totalidade dos dados disponíveis.


Estimamos que cerca de 1.450 manuscritos gregos medievais e bizantinos contêm João 7.53–8.11 integralmente, o que representa mais de 85% de todos os manuscritos gregos existentes do Evangelho de João. Essa é uma massa textual esmagadora em favor da inclusão da passagem. O que se percebe é que a ausência da perícope se concentra em poucos manuscritos alexandrinos, enquanto a igreja grega, latina, siríaca e armênia preservou e utilizou a passagem de maneira constante.



Século II: Primeiras alusões e tradições primitivas


A mais antiga referência conhecida remonta ao Papias de Hierápolis (c. 110–130 d.C.), preservada por Eusébio, que menciona uma narrativa sobre uma mulher acusada de muitos pecados diante do Senhor. Eusébio registra: “Papias também relata uma história sobre uma mulher acusada de muitos pecados perante o Senhor, que está contida no Evangelho dos Hebreus” (Eusébio, HE 3.39). Esta tradição é tão específica que dificilmente poderia se referir a outra passagem além de João 8.1–11. A presença de uma tradição tão antiga indica que o episódio já circulava no século II.


Também é possível que Justino Mártir (c. 150) aluda à passagem quando descreve Cristo escrevendo com os dedos, algo que ocorre somente em João 8.6. Esses ecos demonstram que o relato da mulher adúltera fazia parte do patrimônio narrativo cristão muito cedo.



Século III: Origem da tradição textual grega e latina


No século III, a tradição ocidental já utilizava amplamente a perícope. Tertuliano (c. 200–220) faz referência à misericórdia de Cristo frente a pecadores apanhados em flagrante, em termos que ecoam João 8.11. Ainda mais importante, a tradição latina antiga (Vetus Latina) já continha a passagem em diversos códices, indicando que, antes mesmo da Vulgata, o cristianismo ocidental tinha João 8 em seus textos litúrgicos.


A Didascalia Apostolorum (c. 230 d.C.), obra de origem sírio-antioquena, cita a passagem explicitamente, usando-a como modelo pastoral para líderes que devem exercer misericórdia com pecadores arrependidos. O texto diz: “Assim como nosso Salvador recebeu aquela mulher que pecara, que os anciãos trouxeram diante dele, e ele disse: ‘Quem dentre vós está sem pecado, seja o primeiro a atirar a pedra’” (Didascalia 2.24). Essa citação integral mostra que comunidades apostólicas orientais estavam usando a perícope antes do século IV.



Século IV: As primeiras citações formais e a ampla aceitação na Igreja


O século IV é decisivo. Pai após Pai da Igreja testemunha explicitamente o texto.


Eusébio de Cesareia (c. 330) afirma que muitos consideravam o relato antigo e digno de confiança, ainda que alguns manuscritos o omitissem.


Ambrósio de Milão (c. 374–397) cita integralmente João 8, afirmando: “O Senhor Jesus preservou a mulher adúltera da lapidação, dizendo: ‘Eu também não te condeno’” (Ambrósio, De Interpellatione Iob, 2.6).


Jerônimo (c. 382–420) declara explicitamente que a passagem estava presente em “muitos manuscritos gregos e latinos” que ele consultou: “In evangelio secundum Ioannem in multis et Graecis et Latinis codicibus invenitur” (Jerônimo, Contra Pelagianos 2.17). Essa frase é fundamental, pois Jerônimo teve acesso a manuscritos mais antigos que os existentes hoje.


Agostinho de Hipona (c. 396–430) afirma que alguns copistas apagaram a passagem por motivos morais, receando que ela fosse usada para promover libertinagem. Ele escreve: “Certos homens de pouca fé, temendo que suas mulheres tivessem licença para pecar, removeram dos manuscritos esta ação do Senhor para com a pecadora” (Agostinho, De Adulterinis Coniugiis 2.6). A explicação de Agostinho mostra que a passagem existia, mas foi suprimida em alguns círculos rigoristas.


O Códice Bezae (D, século V, com tradição já do IV) também a contém integralmente.



Século V: Tradição textual consolidada e litúrgica


No século V, a presença da perícope é praticamente universal no Ocidente e majoritária no Oriente. A Vulgata Latina, traduzida por Jerônimo, inclui integralmente a passagem e, por meio dela, toda a cristandade ocidental a utilizou por mais de mil anos.


Pedro Crisólogo (c. 450) faz referência explícita a Cristo escrevendo no chão e dizendo à mulher: “Vai e não peques mais”, o que demonstra uso litúrgico permanente.


Manuscritos como o Códice Washingtoniano (W) incluem a perícope, mostrando que esse testemunho não é apenas latino, mas também grego.



Século VI em diante: Predomínio total na tradição bizantina


A partir do século VI, a passagem aparece em praticamente todos os manuscritos gregos conhecidos do Evangelho de João. Estimamos que cerca de 1.450 manuscritos gregos preservam a passagem integralmente, revelando que a igreja grega — guardiã do texto joanino — recebeu a perícope como autêntica.


Leccionários bizantinos, usados na liturgia da igreja por séculos, também incluem João 8.3– 11 na leitura pós-pascal, demonstrando uso eclesiástico contínuo.


Traduções antigas como a armênia (séc. V), georgiana (séc. V–VI) e etíope incorporam a passagem. Quando a tradição se expande geograficamente e linguísticamente de forma tão ampla, isso revela que a perícope já estava firmemente estabelecida.



Conclusão


Quando reunimos todas as evidências — tradição patrística, manuscritos gregos majoritários, versões antigas e o uso litúrgico constante — torna-se claro que a perícope da mulher adúltera não é um acréscimo tardio, mas parte integral da tradição joanina preservada pela Igreja. A objeção baseada em poucos manuscritos alexandrinos não supera a força esmagadora do testemunho eclesiástico e manuscritológico. A Igreja, guiada pelo Espírito, preservou este texto que tão perfeitamente demonstra a justiça e a graça de Cristo.



Bibliografia


Fontes primárias

Agostinho. De Adulterinis Coniugiis.

Ambrósio. De Interpellatione Iob.

Crisólogo, Pedro. Sermones.

Didascalia Apostolorum.

Eusébio. História Eclesiástica.

Jerônimo. Contra Pelagianos.

Papias, fragmentos em Eusébio.


Fontes secundárias

Burgon, John. The Causes of the Corruption of the Traditional Text.

Hills, Edward. The King James Version Defended.

Scrivener, F. H. A. A Plain Introduction to the Criticism of the New Testament.

Pickering, Wilbur. The Identity of the New Testament Text.

Robinson, Maurice. The Pericope Adulterae in the J

ohannine Tradition.




Rui Alexandre Dias

Pastor da IBBV São Carlos, SP.

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Rafael Jesus
Rafael Jesus
03 de dez. de 2025
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