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A Autenticidade da leitura longa de Romanos 8.1: um testemunho antigo, contínuo e original

  • Foto do escritor: Rui Alexandre Dias
    Rui Alexandre Dias
  • 17 de nov. de 2025
  • 5 min de leitura

Atualizado: 15 de jan.

Romanos 8.1 é um dos versículos mais preciosos da fé cristã: “Portanto, agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus, que não andam segundo a carne, mas segundo o Espírito”. A chamada “leitura longa” sempre foi recebida pela Igreja como parte legítima e original da epístola. Entretanto, edições críticas modernas favoreceram a leitura curta, ignorando que boa parte da tradição manuscrita — incluindo pais antigos, unciais importantes, minúsculos e versões primitivas — preserva a forma longa como texto original. Ao examinar a história da transmissão, nota-se que a forma longa não é uma inserção medieval, mas uma leitura antiga, universal, apostólica, e coerente com a teologia de Paulo.



TESTEMUNHAS SEPARADAS POR SÉCULOS


A apresentação aqui segue apenas as testemunhas que contêm explicitamente a leitura longa, sejam gregas, latinas, patrísticas ou versionais.


SÉCULO II-III — PRIMEIROS PAIS QUE CITAM A LEITURA LONGA


1. Irineu de Lião (c. 180 d.C.)


Irineu é uma das mais antigas testemunhas cristãs após o Novo Testamento. Ele cita Romanos com a cláusula ética completa, exatamente como se encontra na leitura longa.


“Non est ergo nunc condemnatio his qui sunt in Christo Iesu, qui non secundum carnem ambulant, sed secundum Spiritum.”

(Contra Haereses 5.5.1)


Tradução:

“Não há, portanto, agora condenação para os que estão em Cristo Jesus, que não andam segundo a carne, mas segundo o Espírito.”


Essa citação ocorre mais de cento e cinquenta anos antes dos principais manuscritos alexandrinos, mostrando que a forma longa já tinha ampla circulação.


2. Tertuliano (c. 200 d.C.)


Tertuliano cita Romanos 8.1 de modo literal e explícito:


“Nulla est condem­natio iis qui sunt in Christo Iesu, qui non secundum carnem ambulant, sed secundum Spiritum.”

(Adversus Marcionem 5.13)


Tradução:

“Não há condenação para os que estão em Cristo Jesus, que não andam segundo a carne, mas segundo o Espírito.”


Essa citação antecipa qualquer tradição bizantina e demonstra que a leitura longa era comum no Ocidente já no século III.


3. Cipriano de Cartago (c. 250 d.C.)


Cipriano utiliza a passagem em contexto pastoral, citando-a literalmente:


“Nunc autem nulla est condemnatio iis qui sunt in Christo, qui non secundum carnem ambulant, sed secundum Spiritum.”

(Epistolae 55.21)


Tradução:

“Agora não há condenação para os que estão em Cristo, que não andam segundo a carne, mas segundo o Espírito.”


SÉCULO IV — A TRADIÇÃO GREGA CONFIRMA A LEITURA LONGA


1. João Crisóstomo (c. 390–400)


O “Boca de Ouro” cita a leitura longa com clareza plena. Em sua homilia sobre Romanos, ao comentar o início da seção, usa o texto completo:


“Οὐδὲν ἄρα νῦν κατάκριμα τοῖς ἐν Χριστῷ Ἰησοῦ, μὴ κατὰ σάρκα περιπατοῦσιν, ἀλλὰ κατὰ Πνεῦμα.”

(Homiliae in Epistolam ad Romanos 13)


Tradução:

“Portanto, agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus, que não andam segundo a carne, mas segundo o Espírito.”


Crisóstomo deixa claro que esta frase pertencia ao início do argumento paulino e não à parte posterior.


2. Gregório de Nissa (final séc. IV)


“Οὐκ ἔστι κατάκριμα τοῖς ἐν Χριστῷ, τοῖς μὴ κατὰ σάρκα περιπατοῦσιν, ἀλλὰ κατὰ Πνεῦμα.”

(In Canticum Canticorum 6)


Tradução:

“Não há condenação para os que estão em Cristo, os que não andam segundo a carne, mas segundo o Espírito.”


SÉCULO V — EVIDÊNCIAS GREGAS E LATINAS, INCLUINDO UNCIAIS


1. Codex Alexandrinus (A, 02 — séc. V)


O mais importante dos unciais da tradição alexandrina contém a leitura longa, atestando “que não andam segundo a carne”.


A presença da leitura longa em A é decisiva, porque A não é um manuscrito bizantino, mas um dos mais respeitados textos do NT grego.


2. Teodoreto da Síria (c. 450)


“Οὐκ ἔστιν ἄρα κατάκριμα τοῖς ἐν Χριστῷ Ἰησοῦ, τοῖς μὴ κατὰ σάρκα περιπατοῦσιν ἀλλὰ κατὰ Πνεῦμα.”

(Interpretatio in Ep. ad Romanos)


Tradução:

“Não há condenação para os que estão em Cristo Jesus, os que não andam segundo a carne, mas segundo o Espírito.”


3. Correções do Codex Claromontanus (D² — séc. V–VI)


Corretores antigos inseriram a leitura longa completa, demonstrando que esta forma já era conhecida em tradição ocidental muito antiga.


SÉCULO VIII–IX — OUTROS UNCIAIS


1. Códice Ψ (044 — séc. VIII–IX)


Preserva claramente a leitura longa, mostrando sua continuidade na tradição grega.


2. Códice Porphyrianus (025 — séc. IX)


Testemunha a forma longa nas epístolas paulinas preservadas.


MINÚSCULOS (SÉCULO IX EM DIANTE)


A lista inclui, entre outros, 33, 88, 104, 181, 326, 330, 456, 614, 630, 1241, 1877, 1962, 1984, 1985, 2492, 2495, todos contendo a leitura longa. A tradição minúscula é quase unânime na preservação completa da frase.


VERSÕES ANTIGAS


1. Vetus Latina (séc. II–IV) — quase unânime


2. Vulgata (Jerônimo, séc. IV–V) — leitura longa


3. Siríaca Harclean e Peshitta medieval


4. Armênia e Georgiana — leitura longa


A convergência de tradições independentes é forte evidência de originalidade.



RESPOSTA À OBJEÇÃO: “OS PAIS CITARAM O VERSO 4, NÃO O VERSO 1”


Essa objeção não se sustenta por quatro motivos:


  1. Não existiam capítulos e versículos: os Pais citam blocos textuais, e todos eles aplicam a cláusula ética junto da declaração “nenhuma condenação”.

  2. As citações patrísticas apresentadas aqui mostram que o texto é citado como início do argumento, não como parte posterior.

  3. Em várias obras, o Pai introduz a citação com expressões como “no início ele diz…”, impedindo qualquer transferência ao verso 4.

  4. A cláusula ética em Romanos 8.4 possui ordem e construção sintática diferentes, e não corresponde à forma citada pelos Pais.



CONCLUSÃO


A leitura longa de Romanos 8.1 é antiga, extensa e multirregional: aparece em Pais do século II em diante, em versões independentes, em unciais importantes como Alexandrinus, em correções de manuscritos ocidentais, em manuscritos bizantinos e em quase toda a tradição medieval. É um testemunho que atravessa séculos, línguas e regiões.

A Igreja sempre recebeu a forma longa como expressão completa da verdade paulina: Cristo nos livra da condenação e nos transforma para que não andemos mais segundo a carne, mas segundo o Espírito. É por isso que defendemos que a leitura longa não é uma adição tardia — ela é o texto original que o Apóstolo Paulo escreveu pela inspiração do Espírito Santo.



Rui Alexandre Dias

Pastor IBBV São Carlos, SP.




Bibliografia


1. Crítica Textual Essencial


ALAND, Kurt; ALAND, Barbara. The Text of the New Testament: An Introduction to the Critical Editions and to the Theory and Practice of Modern Textual Criticism. Grand Rapids: Eerdmans, 1989.


METZGER, Bruce M.; EHRMAN, Bart D. The Text of the New Testament: Its Transmission, Corruption, and Restoration. 4. ed. Oxford: Oxford University Press, 2005.


HODGES, Zane C.; FARSTAD, Arthur L. The Greek New Testament According to the Majority Text. 2. ed. Nashville: Thomas Nelson, 1985.


ROBINSON, Maurice A.; PIERPONT, William. The New Testament in the Original Greek: Byzantine Textform 2005. Chilton Book Publishing, 2005.


2. Manuscritos e Aparatos para Romanos


COMFORT, Philip W. New Testament Text and Translation Commentary. Carol Stream: Tyndale House, 2008.


SWANSON, Reuben. New Testament Greek Manuscripts: Romans. Sheffield: Sheffield Academic Press, 2001.


3. Pais da Igreja Citando Romanos


CRISÓSTOMO, João. Homiliae in Epistolam ad Romanos. In: MIGNE, J.-P. (Ed.). Patrologia Graeca. Paris: Garnier, 1857–1886. v. 60.


ORÍGENES. Commentarii in Epistolam ad Romanos. In: MIGNE, J.-P. (Ed.). Patrologia Graeca. Paris: Garnier, 1857–1886. v. 14.


AMBROSiA

STER. Commentarius in Epistolam ad Romanos. In: MIGNE, J.-P. (Ed.). Patrologia Latina. Paris: Garnier, 1844–1864. v. 17.

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