A Falsa Narrativa da Ignorância: Como os Tradutores do Textus Receptus Provaram Conhecer as Variantes
- Rui Alexandre Dias
- 10 de nov. de 2025
- 3 min de leitura
É uma narrativa comum, mas fundamentalmente equivocada, a alegação de que figuras cruciais da Reforma e grandes tradutores bíblicos do passado adotaram o Textus Receptus (TR) por mera ignorância das variantes textuais existentes. Esta é uma "mentira contada que virou verdade" no discurso de muitos críticos textuais modernos e influenciadores digitais.
A verdade histórica, contudo, revela que teólogos como Beza, Erasmo, e a equipe de tradutores da King James Version de 1611 (KJV), não estavam alheios à diversidade de manuscritos. Eles tinham acesso e consciência das leituras alternativas—muitas das quais hoje compõem o Texto Crítico (TC)—mas fizeram uma escolha teológica e histórica ponderada em favor do TR.
O Conhecimento das Variantes: Dois Casos Irrefutáveis
O argumento central dos defensores do TR é que a escolha não foi por carência de informação, mas por critério. Dois exemplos históricos, separados por séculos, provam isso de forma categórica:
1. A Perspicácia de John Gill em Efésios 5:9: Espírito versus Luz
Um exemplo notável desta escolha deliberada é encontrado em Efésios 5:9. A variação em questão é clara:
Textus Receptus (TR): "Porque o fruto do Espírito está em toda a bondade, e justiça e verdade" (Almeida Corrigida Fiel - ACF)
Texto Alternativo (TC): "pois o fruto da luz consiste em toda bondade e justiça e verdade."
O comentário do renomado teólogo batista John Gill, no século XVIII, serve como prova irrefutável do conhecimento das variantes. Ao comentar Efésios 5:9, ele não só menciona a leitura do TR ("fruto do Espírito"), como também reconhece explicitamente a alternativa, citando os manuscritos contrários:
"A cópia Alexandrina, e algumas outras, e as versões Vulgata Latina, Siríaca e Etíope, lêem 'o fruto da luz'; que concorda com as palavras anteriores: e o fruto genuíno da graça interna, ou luz, [está] em toda bondade e retidão e verdade..."
Gill demonstra conhecimento detalhado do Códice Alexandrinus (TC) e de diversas outras versões antigas que sustentavam a leitura "luz". O fato de ele conhecer, citar e analisar a variante, mas ainda assim seguir o texto tradicional, prova que a escolha não era por ignorância, mas por preferência textual e teológica.
2. A Escolha Crítica de Theodore Beza sobre 1 João 5:7
Theodore Beza, sucessor de Calvino e um dos editores cruciais do TR, não só tinha acesso a manuscritos (como o Codex Bezae, um dos pilares do TC) que continham variantes, como também demonstrava ativamente o seu processo de crítica textual.
O famoso caso do Comma Johanneum (1 João 5:7-8), embora controverso, ilustra o ponto:
1 João 5:7 (conforme o TR): "Porque três são os que testificam no céu: o Pai, a Palavra, e o Espírito Santo; e estes três são um." (Almeida Corrigida Fiel - ACF)
Beza, juntamente com Estienne, estava totalmente engajado na análise das variações. O simples fato de Beza ter consultado e rejeitado a inclusão de certas leituras dos manuscritos antigos que ele possuía — e até mesmo feito alterações pontuais em suas edições do TR com base em seus próprios critérios críticos — é a prova de que ele não era um mero copista ignorante.
Beza, Almeida, Tyndale e os 47 tradutores da King James tinham os dados textuais; eles simplesmente priorizaram a Tradição Bizantina (base do TR) por sua prevalência e clareza doutrinária ao longo da história da Igreja, escolhendo-a como o texto mais robusto e fiel à doutrina.
A Mudança de Paradigma Pós-1881
A virada nas traduções modernas para o uso do Texto Crítico, especialmente após 1881 com a Revised Version (RV) e seu endosso aos manuscritos ocidentais mais antigos (como Sinaiticus e Vaticanus), não foi o resultado de "descobertas novas" que tornaram o TR obsoleto. Pelo contrário, foi a ascensão de uma nova metodologia crítica que priorizou a antiguidade dos manuscritos em detrimento da quantidade e da tradição eclesiástica preservada no TR.
O Textus Receptus é um texto robusto e doutrinariamente claro. Sua adesão por séculos de erudição cristã não se deveu à falta de opções, mas sim a um entendimento de que o texto que havia sido providencialmente preservado e usado pela Igreja, com suas claras referências doutrinárias, era o mais confiável para a fé e prática.
A Importância da Verdade
Como a Palavra de Deus nos adverte: "Porque o fruto do Espírito está em toda a bondade, e justiça e verdade" (Efésios 5:9, ACF). A busca pela verdade deve se estender não apenas ao conteúdo da Bíblia, mas também à história de sua transmissão. O youtuber ou teólogo que afirma que os tradutores do passado usavam o TR simplesmente "porque era só o que tinha" demonstra, no mínimo, ignorância histórica sobre a crítica textual dos séculos XVII e XVIII.
O Textus Receptus não é um "texto inferior" descartado por descobertas modernas; é um texto escolhido por homens eruditos que estavam plenamente cientes de suas opções, mas optaram pela tradição textual que consideravam a mais pura e historicamente validada.
Rui Alexandre Dias
Pastor da IBBV São Carlos, SP.
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