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Beza, Scrivener e a Estabilidade do Textus Receptus em comparação com a instabilidade do Texto Crítico

Foto do escritor: Rui Alexandre Dias
Rui Alexandre Dias
há 7 dias
5 min de leitura

O Textus Receptus (TR) é o texto grego do Novo Testamento que Deus, em Sua soberana providência, preservou para a Sua Igreja ao longo dos séculos. Não se trata de um texto “quase bom”, “o melhor disponível segundo critérios humanos” ou “o mais próximo do original reconstruído por comitês modernos”. É o preservado, aquele que a Igreja de Cristo recebeu, copiou, leu, pregou e traduziu, especialmente no período da Reforma Protestante.


Este artigo examina a relação entre duas das principais edições do Textus Receptus — a de Teodoro Beza (1598) e a de F.H.A. Scrivener (1894) — e as contrasta com a instabilidade constante do texto crítico moderno, conhecido como Nestle-Aland.


1. As diferenças entre Beza 1598 e Scrivener 1894 são mínimas


Entre a edição de Beza de 1598 e a edição de Scrivener de 1894 existem aproximadamente 190 diferenças. A esmagadora maioria dessas variações é de natureza puramente formal e não afeta o sentido do texto:


- Acentos e sinais diacríticos

- Presença ou ausência do chamado “movable nu” (a letra ν no final de certas palavras)


O que é o movable nu?

O movable nu (em grego: ν ἐφελκυστικόν) é a letra ν que aparece no final de certas palavras gregas — especialmente verbos e alguns substantivos ou adjetivos — quando a palavra seguinte começa com vogal. Sua função era facilitar a pronúncia, evitando o hiato entre duas vogais. Exemplos comuns: ἔστιν / ἔστι, λέγουσιν / λέγουσι, πᾶσιν / πᾶσι. Nos manuscritos e nas edições impressas, a presença ou ausência desse nu varia com frequência. Por isso, muitas das diferenças listadas entre Beza e Scrivener são exatamente a presença ou ausência desse nu móvel, sem qualquer alteração de sentido.


- Pequenas diferenças ortográficas em nomes próprios (Nazareth/Nazaret, Beelzeboul/Beelzebub, Osias/Ozias etc.)

- Artigos definidos e partículas menores


As diferenças que realmente envolvem mudança de palavra ou nuance perceptível são pouquíssimas. Entre as mais citadas estão:


- Lucas 2:22 – αὐτῶν (“deles”) no Beza × αὐτῆς (“dela”) no Scrivener

- 2 João 1:1 – presença ou ausência do artigo τῇ

- Marcos 9:42 – adição de τούτων no Scrivener

- Mateus 2:11 – εὗρον × εἶδον


Nenhuma dessas variações altera doutrina, sentido principal ou a substância da mensagem. São ajustes menores dentro da mesma corrente textual.


2. Scrivener não fez retrotradução


É fundamental desfazer um equívoco comum: Scrivener não inventou grego a partir do inglês. Ele não realizou “retrotradução”.


F.H.A. Scrivener tomou como ponto de partida o texto de Beza 1598 — a edição que mais se aproximava das escolhas dos tradutores da King James Version de 1611 — e, nos pontos em que a KJV claramente seguia outra edição grega do Textus Receptus (Stephanus, Erasmus, Complutense etc.), adotou a leitura grega correspondente. Seu trabalho foi de depuração e alinhamento dentro da própria família do TR. Ele declarou explicitamente que só aceitaria autoridade grega. Não criou texto; refinou o texto já existente e preservado pela tradição da Igreja.


3. A instabilidade do texto crítico (Nestle-Aland)


Enquanto o Textus Receptus apresenta estabilidade notável entre suas principais edições, o texto crítico moderno revela constante movimento e revisão.


3.1 Mudanças entre NA27 e NA28


Entre a 27ª e a 28ª edição do Nestle-Aland (publicada em 2012) houve 34 mudanças apenas nas Epístolas Católicas. No restante do Novo Testamento o texto principal permaneceu inalterado.


Lista completa dos versículos alterados:


- Tiago: 1:20; 2:3; 2:4; 2:15; 4:10

- 1 Pedro: 1:6; 1:16; 2:5; 2:25; 4:16; 5:1; 5:9; 5:10

- 2 Pedro: 2:6; 2:11; 2:15; 2:18; 2:20; 3:6; 3:10; 3:16; 3:18

- 1 João: 1:7; 3:7; 5:10; 5:18

- 2 João: 5; 12

- 3 João: 4

- Judas: 5; 18


Algumas das mudanças mais notáveis:

- Tiago 1:20 – ἐργάζεται → κατεργάζεται

- Tiago 2:3 – mudança de ordem das palavras

- 2 Pedro 3:10 – εὑρεθήσεται → οὐχ εὑρεθήσεται (“não será encontrado”)

- Judas 5 – [ὁ] κύριος → Ἰησοῦς (troca de “Senhor” por “Jesus”)


3.2 Desde a 1ª edição de Nestle (1898) até a 27ª edição


A primeira edição de Eberhard Nestle foi publicada em 1898. Desde então, o texto crítico passou por 27 edições até a NA27 (1993). Não existe um número oficial único e preciso que some todas as mudanças textuais desse período, pois as alterações foram graduais. Os dados mais confiáveis indicam:


- Nas primeiras edições (1ª a 12ª) o texto era formado pela maioria das edições impressas anteriores (Tischendorf, Westcott-Hort e Weymouth/Weiss).

- Mudanças metodológicas importantes ocorreram na 13ª edição (1927) e na 25ª edição (1963).

- Entre a 25ª e a 27ª edição houve aproximadamente 740 mudanças no texto principal.

- Entre a 26ª e a 27ª edição o texto principal é praticamente idêntico (as diferenças estão quase só no aparato crítico).


O total acumulado de alterações textuais desde 1898 até a 27ª edição está, portanto, na casa das centenas (estimativa razoável entre 800 e 1.200, dependendo de como se contam variações ortográficas e de pontuação).


Essa sucessão constante de revisões demonstra que o texto crítico nunca se estabilizou. O que ontem era apresentado como o texto mais próximo do original, hoje já foi modificado novamente.


4. Conclusão


O Textus Receptus é o texto que Deus preservou para a Sua Igreja. Ele se apoia na corrente majoritária dos manuscritos gregos e foi o veículo pelo qual a Palavra de Deus chegou às gerações da Reforma e posteriores. Scrivener, ao depurar o texto de Beza, não enfraqueceu o TR — ele o confirmou e o tornou ainda mais útil para quem deseja estudar o grego que subjaz às traduções clássicas protestantes.


As diferenças entre Beza 1598 e Scrivener 1894 são mínimas. Scrivener não fez retrotradução. E o Textus Receptus continua sendo, pela graça de Deus, o texto perfeito e preservado do Novo Testamento.




Rui Alexandre Dias.

Pastor da IBBV São Carlos.

Pós Graduando em Ministério Pastoral pela Faculdade Batista teológica de SP




Referências e fontes


1. Trinitarian Bible Society e recursos especializados em Textus Receptus sobre as diferenças entre Beza 1598 e Scrivener 1894 (aproximadamente 190 variações documentadas).

2. Introdução e aparato crítico do *Novum Testamentum Graece*, 28ª edição (Nestle-Aland 28) — lista oficial das 34 mudanças nas Epístolas Católicas.

3. Resumos acadêmicos das mudanças NA27 → NA28 (Larry Hurtado, Drew Maust e documentação do Institut für Neutestamentliche Textforschung – INTF).

4. Dados sobre mudanças entre NA25 e NA27: aproximadamente 740 alterações (comparações publicadas em estudos de crítica textual, incluindo referências ao Appendix III da NA27 e análises de Wieland Willker / The Text of the Gospels).

5. História das edições Nestle: Eberhard Nestle (1ª edição, 1898), Erwin Nestle (a partir da 13ª edição, 1927) e Kurt Aland (participação crescente a partir da 21ª/25ª edição).

6. Fontes secundárias de crí

tica textual confessional e comparações entre edições do Textus Receptus e do texto crítico.

 
 
 

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