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A Comma Joanina e a controvérsia Ariana

Foto do escritor: Sitri Silas
Sitri Silas
há 4 dias
5 min de leitura

A controvérsia ariana teve início no começo do século IV, em Alexandria, em torno da relação entre Deus Pai e o Filho. Ário, presbítero de Alexandria, sustentava que o Filho não era eterno no mesmo sentido que o Pai e que, portanto, não poderia ser identificado simplesmente com o próprio Deus, pelo menos alguém de substância diferente.


O conflito conduziu ao Concílio de Niceia, em 325 d.C., que confessou o Filho como “Deus verdadeiro de Deus verdadeiro” e “consubstancial” (homoousios) ao Pai. Niceia, entretanto, não encerrou imediatamente a controvérsia. Durante as décadas seguintes ocorreram sucessivos concílios, exílios, reabilitações e formulações teológicas, fazendo da questão trinitária um dos maiores conflitos doutrinários do século IV.


É nesse contexto da literatura antiariana que encontramos a obra tradicionalmente intitulada Disputatio contra Arium, transmitida sob o nome de Atanásio de Alexandria. Embora se discuta a origem da obra, ela sempre foi claramente referenciada como pertencente à tradição atanasiana.

A importância da Disputatio para a história da Comma está em uma passagem na qual, depois de tratar do batismo e da fórmula trinitária, aparece o seguinte texto:


Τί δὲ καὶ τὸ τῆς ἀφέσεως τῶν ἁμαρτιῶν παρεκτικόν, καὶ ζωοποιόν, καὶ ἁγιαστικὸν λουτρόν, οὗ χωρὶς οὐδεῖς ὄψεται τὴν βασιλείαν τῶν οὐρανῶν, οὐκ ἐν τῇ τρισμακαρίᾳ ὀνομασίᾳ δίδοται τοῖς πιστοῖς; Πρὸς δὲ τοῦτοις πᾶσιν Ἰωάννης φάσκει· «Καὶ οἱ τρεῖς τὸ ἕν εἰσιν»
"Da mesma forma, a remissão dos pecados não é obtida por aquela ablução vivificante e santificadora, sem a qual nenhum homem verá o reino dos céus, uma ablução dada aos fiéis no nome três vezes abençoado. E além de tudo isso, João diz: 'E os três são um'." [1]

A fórmula é particularmente significativa porque aparece em um contexto explicitamente trinitário e antiariano. A passagem está ligada à discussão da fé na Trindade e aparece imediatamente depois da referência ao batismo no nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, isto é especialmente interessante porque a frase é atribuída explicitamente a João é utilizada no contexto e doutrina da Trindade.


A própria tradição atanasiana usa a Comma contra os arianos, mas não temos somente essa ocorrência dentro do contexto da controvérsia.


A decisão de Niceia não encerrou a controvérsia.


Durante os reinados de Constantino e, sobretudo, Constâncio II, diversos bispos foram exilados, restaurados ou depostos. Surgiram diferentes grupos e fórmulas teológicas que rejeitavam ou reinterpretavam o termo homoousios.


É nesse ambiente que se encontra Potâmio de Lisboa (Potamius Olisponensis), bispo de Lisboa no século IV. Potâmio é uma figura especialmente interessante porque sua própria carreira episcopal esteve diretamente envolvida na controvérsia ariana. Ele foi alguém que inicialmente sustentava a posição nicena, mas que posteriormente passou para o lado ariano durante o período de influência do imperador Constâncio II. A reconstrução de Marco Conti situa sua adesão ao arianismo aproximadamente entre 355 d.C. e 357/358 d.C., seguida posteriormente de seu retorno à posição nicena. [2] Após seu retorno à posição nicena, Potâmio produziu textos de forte conteúdo trinitário. Em sua obra Epistula de Substantia Patris et Filii et Spiritus Sancti, ele afirma que:


Merito Iohannes ait: Et tres unum sunt.
"Com razão João diz: ‘E os três são um’" [3]

Potâmio não apresenta a frase simplesmente como uma máxima teológica. Ele a atribui diretamente a João e a utiliza no contexto de sua argumentação sobre a unidade da substância do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Potamio portanto usa a fórmula como Joanina e em defesa da unidade da Trindade e da substância divina nas três pessoas.


Após a segunda metade do século IV, o Concílio de Constantinopla, em 381 d.C., consolidou a posição nicena e afirmou de modo explícito a divindade do Espírito Santo. Isso significou uma derrota decisiva das correntes anti-nicenas dentro do Império Romano, mas não significou o desaparecimento imediato de todas as comunidades que professavam formas de cristianismo ariano ou homoiano.


No decorrer do século IV, diversos povos germânicos receberam formas de cristianismo associadas ao arianismo ou ao homoianismo. Entre eles estavam os godos e, posteriormente, os vândalos.


Assim, a questão que inicialmente havia surgido dentro da Igreja do Império Romano assumiu uma nova configuração política e geográfica. No século V, os reinos germânicos passaram a controlar territórios anteriormente pertencentes ao Império Romano e, em alguns deles, a elite governante professava uma forma de cristianismo anti-niceno.


Os vândalos conquistaram o Norte da África romana no século V e estabeleceram um reino cuja elite governante professava o cristianismo ariano/homoiano. Um dos seus reis mais importantes foi Hunerico, que governou de 477 d.C. a 484 d.C.


Durante seu reinado ocorreu um dos episódios mais importantes da história da controvérsia entre nicenos e arianos na África: a grande conferência episcopal de Cartago em 484 d.C.


A principal fonte narrativa para o acontecimento é Victor de Vita, bispo africano e autor da Historia persecutionis Africanae Provinciae. Sua obra foi escrita no contexto imediato da perseguição vândala e preserva a confissão de fé apresentada pelos bispos cristãos. Eles apresentaram uma profissão de fé na qual defenderam a plena divindade do Pai, do Filho e do Espírito Santo. É nesse documento que encontramos a forma completa da Comma joanina que, ao argumentar pela divindade do Espírito Santo, a confissão dos bispos afirma:


Et ut adhuc luce clarius unius divinitatis esse cum Patre et Filio Spiritum sanctum doceamus, Iohannis evangelistae testimonio comprobatur. Ait namque: Tres sunt qui testimonium perhibent in caelo, Pater, Verbum et Spiritus sanctus, et hi tres unum sunt.
E para demonstrarmos ainda mais claramente que o Espírito Santo possui uma única divindade com o Pai e o Filho, isso é comprovado pelo testemunho de João Evangelista. Pois ele diz: Há três que dão testemunho no céu: o Pai, o Verbo e o Espírito Santo, e estes três são um." [4]

Veja bem, os bispos não estavam simplesmente escrevendo um comentário sobre a Trindade. Eles estavam defendendo sua fé diante de um poder político ariano e em uma conferência convocada precisamente no contexto do conflito entre os dois grupos. A Comma é, então, introduzida para provar a unidade da divindade do Pai, do Filho e do Espírito Santo.


Não houve resposta registrada dos arianos quanto a isso; a documentação preservada não registra uma objeção dos homoianos à Comma sob o argumento de que a passagem seria uma interpolação ou não pertenceria à Escritura. Em todos os seus argumentos esse ponto nunca é levantado ou questionado; pelo contrário, a resposta veio pela força, quando os cristãos foram então perseguidos e exilados sob as ordens do rei vândalo.


A evidência histórica favorece significativamente a conclusão de que a Comma foi utilizada sim em contextos de controvérsia ariana e contra os arianos, e adicionalmente não há registro que os arianos tenham contestado a passagem como uma interpolação ou como texto estranho à Escritura; é certamente conclusivo a existência de um texto que já possuía autoridade suficiente para ser apresentado publicamente nesse contexto de controvérsia trinitaria.


A história da Comma não pode ser honestamente, ou pelo menos de forma plausível, descrita como uma adição medieval introduzida apenas para sustentar a doutrina da Trindade. Muito antes da controvérsia textual moderna, a passagem já possuía uma história documentável de recepção trinitária, e essa história está diretamente ligada às controvérsias cristológicas e trinitárias dos séculos IV e V. A evidência, tomada cumulativamente, aponta para a existência do texto, a aceitação do texto e o uso do texto de forma conhecida e ampla, pelo menos nos ambientes da controvérsia.


NOTAS

[1] Disputatio contra Arium, 44.18, PG 28:500.

[2] Marco Conti, The Life and Works of Potamius of Lisbon, The Medieval Review, 2000.

[3] POTÂMIO DE LISBOA. Epistula de Substantia Patris et Filii et Spiritus Sancti apud Guillermo Antolín, Opúsculos desconocidos de San Jerónimo, Revista de Archivos, Bibliotecas y Museos, vol. 19, 1909, p. 217.

[4] VICTOR DE VITA. Historia persecutionis Africanae Provinciae, III, 11.

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