Zacarias 12:10 — “Olharão para mim” ou “Olharão para ele”? Uma análise textual e cristológica
- Rui Alexandre Dias

- há 4 dias
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Zacarias 12:10 é uma das passagens mais impressionantes do Antigo Testamento para a cristologia. O texto hebraico tradicional apresenta:
וְהִבִּיטוּ אֵלַי אֵת אֲשֶׁר־דָּקָרוּ — ēlay ’ăšer-dāqārû
“E olharão para mim, a quem traspassaram.”
É exatamente essa a leitura preservada pela Almeida Corrigida e Fiel (ACF). Algumas traduções modernas, porém, apresentam “olharão para ele” ou “olharão para aquele a quem traspassaram”. A diferença envolve uma questão real de crítica textual.
1. A leitura do Texto Massorético
O Texto Massorético traz אֵלַי — ēlay, formado pela preposição el, “para”, com o sufixo de primeira pessoa singular: “para mim”. Essa leitura aparece no Códice de Leningrado (B19a), datado de 1008/1009 d.C., e no Códice de Aleppo.
Portanto, “olharão para mim” não é uma peculiaridade da ACF, da tradição King James ou de uma preferência protestante. É a leitura preservada pela tradição massorética principal.
Existe, contudo, uma variante textual de terceira pessoa ou equivalente a “para aquele a quem”. O aparato do NET Bible registra essas variantes, contrastando-as com a leitura massorética “para mim, a quem”.
As colações de Benjamin Kennicott e Giovanni Bernardo De Rossi também registraram manuscritos hebraicos medievais contendo leituras alternativas. Isso demonstra que a variante possui existência histórica, mas não prova que tenha surgido na Idade Média nem que tenha sido criada deliberadamente para evitar uma interpretação cristológica.
2. A dificuldade do texto e a lectio difficilior
A dificuldade está no próprio contexto. O Senhor declara:
“Derramarei sobre a casa de Davi e sobre os habitantes de Jerusalém o Espírito de graça e de súplicas.”
Em seguida:
“Olharão para mim, a quem traspassaram; e prantearão por ele.”
Temos uma mudança impressionante de primeira para terceira pessoa: “mim” → “ele”. Se quem fala é o próprio Senhor, o texto afirma que olharão para o próprio Senhor “a quem traspassaram”.
A leitura “ele”, por outro lado, torna a construção muito mais simples. É justamente aqui que entra o conhecido princípio da crítica textual lectio difficilior potior, “a leitura mais difícil é preferível”. A ideia é que escribas possuem maior probabilidade de suavizar uma dificuldade do que de criar deliberadamente uma dificuldade extraordinária.
Entretanto, é importante esclarecer minha posição: não considero a lectio difficilior o critério supremo para estabelecer o texto bíblico. Para mim, o testemunho contínuo da Igreja, a recepção histórica e a preservação da tradição textual possuem peso fundamental.
Mas há uma questão de coerência metodológica para aqueles que adotam a crítica textual moderna: se a lectio difficilior é um princípio relevante, por que abandonar “mim”, justamente a leitura que contém a dificuldade, em favor de “ele”, que a elimina?
O próprio NET Bible, que não pertence à tradição do Texto Tradicional, reconhece a dificuldade teológica de o próprio Deus ser identificado como aquele que foi traspassado e considera a leitura mais difícil do Texto Massorético preferível.
Assim, mesmo sem aceitar a lectio difficilior como meu fundamento principal, posso argumentar que aqueles que adotam esse princípio deveriam ser coerentes com ele.
3. A Septuaginta e os manuscritos antigos
A Septuaginta também é significativa. Ela contém πρός με — pros me, “para mim”, preservando o pronome de primeira pessoa. Embora sua tradução do restante do versículo não seja uma reprodução literal de cada elemento do hebraico massorético, ela demonstra que a leitura “para mim” não pode ser simplesmente tratada como uma inovação massorética medieval.
Qumran deve ser mencionado com cautela. O manuscrito 4Q80 (4QXIIᵉ) preserva parte de Zacarias 12:7–12, mas o fragmento está danificado justamente de modo que não permite determinar com segurança qual pronome estava na lacuna de 12:10. Portanto, ele demonstra a antiguidade da tradição textual de Zacarias, mas não constitui prova direta de “mim”.
Também é importante lembrar que nem todas as traduções modernas adotam “ele”. A NIV, a NASB e a ESV preservam “mim”. Portanto, a crítica deve ser dirigida às traduções que efetivamente optam pela leitura de terceira pessoa.
No português, a diferença é clara:
- ACF: “e olharão para mim, a quem traspassaram.”
- NAA: “olharão para ele, a quem traspassaram.”
Não são simplesmente duas formas de traduzir o mesmo pronome. A NAA está adotando uma leitura textual diferente daquela preservada pelo Texto Massorético.
4. A força cristológica de “olharão para mim”
A leitura massorética ganha enorme força quando observamos o Novo Testamento.
João 19:37 aplica Zacarias 12:10 à crucificação de Jesus:
“Olharão para aquele a quem traspassaram.”
Apocalipse 1:7 retoma igualmente a linguagem de Zacarias:
“Todo olho o verá, até os mesmos que o traspassaram.”
Assim, a tradição apostólica identifica claramente o Traspassado com Jesus Cristo.
João não precisa reproduzir literalmente o pronome hebraico “para mim” para aplicar a profecia a Cristo. Pelo contrário, a leitura massorética possui uma profundidade cristológica extraordinária:
O Senhor declara: “derramarei o Espírito”;
depois declara: “olharão para mim, a quem traspassaram”;
e imediatamente o texto fala de “ele”.
À luz do Novo Testamento, essa tensão ganha enorme significado: o Deus que fala é identificado com aquele que será traspassado, e o Novo Testamento identifica o Traspassado com Jesus Cristo.
Não precisamos, portanto, trocar “mim” por “ele” para encontrar Cristo em Zacarias 12:10. Na realidade, “mim” é justamente a leitura que torna a passagem tão poderosa cristologicamente.
5. Conclusão
É preciso evitar afirmações históricas que não possam ser demonstradas documentalmente. Não podemos afirmar categoricamente que “os judeus alteraram o texto para esconder que o Messias era Jeová” sem evidência direta dessa intenção. O que podemos afirmar é que existe uma variante de terceira pessoa documentada na tradição hebraica; ela elimina a dificuldade presente em “mim”; a tradição massorética principal preserva “mim”; a Septuaginta também testemunha a primeira pessoa; e até o NET Bible considera a leitura massorética preferível em razão de sua dificuldade.
Portanto, “olharão para mim” é a leitura correta do Texto Massorético. Ela é preservada pelos principais códices massoréticos, como Leningrado e Aleppo, e possui também testemunho antigo na tradição grega quanto ao pronome de primeira pessoa.
A leitura “ele” ou “para aquele a quem” é uma variante textual documentada, mas não deve ser tratada como se fosse a leitura principal do Texto Massorético.
A questão pode ser resumida assim:
אֵלַי — ēlay — “para mim” é a leitura do Texto Massorético.
A leitura de terceira pessoa torna o texto mais fácil. “Mim” produz a extraordinária dificuldade de o próprio Senhor ser identificado como o Traspassado. A lectio difficilior, para aqueles que adotam esse princípio, favorece a preservação dessa leitura.
Mas esse não é o fundamento principal da minha posição. Eu considero mais importante o testemunho histórico e contínuo da Igreja na transmissão e recepção das Escrituras. Por isso, defendo “olharão para mim” porque essa é a leitura do Texto Massorético, preservada nos principais códices, testemunhada na tradição grega antiga e pertencente à tradição textual recebida pela Igreja.
E há uma extraordinária convergência: a tradição histórica da Igreja e, como argumento adicional, a própria lógica da lectio difficilior apontam para a mesma leitura:
«“E olharão para mim, a quem traspassaram.”»
À luz de João 19:37 e Apocalipse 1:7, o Novo Testamento identifica o Traspassado com Jesus Cristo. Assim, aquele que derrama o Espírito é também aquele que declara ter sido traspassado. A leitura “mim” não enfraquece a cristologia do texto; ela a torna ainda mais poderosa.
Referências
- Westminster Leningrad Codex, Zacarias 12:10.
- Códice de Aleppo, Zacarias 12:10.
- NET Bible, nota textual de Zacarias 12:10.
- Jamieson, Fausset & Brown, Commentary on the Whole Bible, Zacarias 12:10.
- Benjamin Kennicott, Vetus Testamentum Hebraicum cum Variis Lectionibus.
- Giovanni Bernardo De Rossi, Variae Lectiones Veteris Testamenti.
- Septuaginta, Zacarias 12:10 — πρός με (pros me).
- João 19:37.
- Apocalipse 1:7.
- Princípio da lectio difficilior potior.
Rui Alexandre Dias, Pastor da IBBV São Carlos, SP.
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