Não Precisamos do Sinaiticus e do Vaticanus
- Rui Alexandre Dias

- 13 de dez. de 2025
- 4 min de leitura
Atualizado: 15 de jan.
O paradigma crítico dominante desde o final do século XIX estabeleceu uma dependência metodológica desproporcional do Codex Vaticanus (B) e do Codex Sinaiticus (ℵ), como se esses dois testemunhos, isoladamente, pudessem redefinir a constituição do texto grego do Novo Testamento. Contudo, quando analisados à luz dos princípios clássicos da crítica textual, da história da recepção e da fenomenologia transmissional do texto cristão, torna-se evidente que a centralidade conferida a B e ℵ é indevida. O edifício textual dos apóstolos não repousa sobre a excepcionalidade de dois códices do século IV, mas sobre a continuidade transmissional que se manifesta de forma esmagadora na tradição bizantina e se cristaliza no Texto Recebido.
A primeira fraqueza metodológica da dependência moderna em B e ℵ decorre da adoção acrítica do princípio “the older, the better” (Mais velho, então melhor). Embora a antiguidade paleográfica seja um fator relevante, ela não constitui critério suficiente para superioridade textual, especialmente quando a transmissão cristã não foi uniforme no espaço geográfico. A tradição alexandrina na qual B e ℵ se situam apresenta características reconhecíveis de revisão editorial e abreviação sistemática, notadas tanto por Aland quanto por Metzger, ainda que interpretadas de forma positiva pelos mesmos. A tendência alexandrina de concisão textual pode ser explicada não como preservação do original, mas como resultado de uma escola local de copistas que adotava preferências estilísticas específicas. Essa observação corresponde ao que Pickering chama de “instância de texto controlado localmente” (A identidade do Texto do NT, 1977), evidenciando que a antiguidade de tais testemunhos não implica representatividade global.
Em termos fenomenológicos, ℵ demonstra instabilidade textual acentuada. Scrivener documentou exaustivamente mais de 14.800 correções realizadas por revisores distintos, em camadas sucessivas, o que indica que o manuscrito não representava um texto padronizado nem reconhecido como autoritativo no ambiente onde circulou. Burgon observa que ℵ contém omissões por homoioteleuton, repetições acidentais (dittographia) e substituições arbitrárias em proporção muito superior à média manuscrita. Os erros de salto, especialmente, sinalizam a ausência de revisão rigorosa por parte do copista primário. A multiplicidade de correções, incluindo a atuação do chamado “Escriba D”, sugere que o manuscrito foi submetido a tentativas tardias de harmonização interna, fato que torna inadequado o uso de ℵ como base primária de reconstrução textual.
O Codex Vaticanus apresenta uma forma igualmente problemática. B é considerado pela crítica moderna o testemunho mais próximo do “texto original”, porém essa identificação repousa sobre um círculo metodológico: constrói-se um texto-alvo que se aproxima de B e, em seguida, afirma-se que B coincide com esse texto-alvo. Além disso, a preservação física incomum de B que permaneceu por séculos quase intacto, sem desgaste litúrgico, sugere ausência completa de uso eclesiástico. Textos normativos são usados; textos usados se desgastam. O fato de B ter sido mantido em confinamento institucional, sem evidências de circulação, é mais consistente com um manuscrito arquivístico do que com um exemplar normativo. Hills aponta que “a recepção eclesiástica é fator teológico e histórico irredutível da preservação textual”, e nesse quesito, B é um testemunho isolado, não representativo.
Outra falha estrutural da dependência de ℵ e B é que eles não concordam entre si. A crítica moderna frequentemente cita a “aliança” de B e ℵ como critério de autenticidade (metodologia de Westcott-Hort), mas os dois códices divergem entre si mais de 3.000 vezes apenas nos Evangelhos, conforme cálculo de Burgon e confirmado por análises posteriores. Um texto supostamente primitivo e uniforme não pode ser exemplificado por dois códices que apresentam divergências substanciais entre si. O argumento de que B e ℵ preservam um “texto neutro” colapsou já no século XX, quando Aland demonstrou que a classificação hortiana de “texto neutro” não é sustentável. O que resta, então, é a preferência moderna por tais manuscritos baseada não em superioridade transmissional, mas em preferências editoriais.
Do ponto de vista da crítica transmissional, a tradição bizantina que sustenta o Texto Recebido apresenta características essenciais à preservação: estabilidade, difusão geográfica ampla, consistência litúrgica e testemunho patrístico abundante. A teoria hortiana do “recensio luciânica” já foi rejeitada pela pesquisa moderna, e nenhuma explicação coerente foi oferecida para a emergência e a estabilidade do texto bizantino caso este fosse realmente tardio ou secundário. Como observa Pickering, seria estatisticamente impossível a uniformidade bizantina existir caso sua origem fosse artificial ou tardia. A emergência de um texto majoritário com consistência interna ao longo de mais de dez séculos indica que estamos diante de uma transmissão contínua, amplamente recebida e identificada pela Igreja como norma.
As leituras omitidas em B e ℵ como Marcos 16:9–20, João 7:53–8:11 e a doxologia de Mateus 6:13 não representam “corrupções tardias”, mas parte integral do corpus usado pela Igreja, citado pelos pais e suportado pela maioria manuscrita. A rejeição moderna dessas passagens baseia-se na prioridade indevida concedida a dois códices isolados, não em uma análise transmissional. Quando se observa a totalidade dos dados manuscritos, versões antigas, patrística, lecionários o peso cumulativo aponta para a autenticidade tradicional, não para a exceção alexandrina.
Assim, a teologia da preservação, a fenomenologia da transmissão manuscrita, o testemunho patrístico, a estabilidade litúrgica e a evidência quantitativa e qualitativa convergem para a conclusão de que não dependemos e epistemologicamente não devemos depender de Sinaiticus e Vaticanus. Eles são testemunhos relevantes, porém secundários. A reconstrução do texto inspirado é melhor servida pelo modelo transmissional, que vê na tradição bizantina e no Texto Recebido a expressão mais consistente, historicamente enraizada e eclesiologicamente reconhecida do Novo Testamento preservado.
Rui Alexandre Dias,
Pastor da IBBV São Carlos, SP.
Bibliografia de suporte:
Aland, Kurt; Aland, Barbara. The Text of the New Testament. Grand Rapids: Eerdmans, 1995.
Burgon, John W. The Revision Revised. London: John Murray, 1881.
Burgon, John W. Causes of the Corruption of the Traditional Text of the Gospels. London: Bell, 1896.
Colwell, Ernest. Studies in Methodology in Textual Criticism of the New Testament. Leiden: Brill, 1969.
Hills, Edward F. The King James Version Defended. Des Moines: CRP, 1956.
Metzger, Bruce. The Text of the New Testament. Oxford: OUP, 1992.
Pickering, Wilbur N. The Identity of the New Testament Text. Nashville: Nelson, 1977.
Robinson, Maurice A.; Pierpont, William G. The New Testament in the Original Greek: Byzantine Textform. Chilton Book Publishing, 2005.
Scrivener, F. H. A. A Plain Introduction to the Criticism of the New Te
stament. Cambridge: Bell, 1894.
.png)



Comentários