O Inesperado Testemunho dos Papiros Antigos em Favor do Textus Receptus
- Rui Alexandre Dias

- 8 de nov. de 2025
- 3 min de leitura
Ao longo de décadas, a Crítica Textual moderna, dominada pelas escolas que promovem o Texto Crítico (como o Novum Testamentum Graece), tem estabelecido um paradigma: o Textus Receptus (TR) seria um texto recente, baseado em manuscritos tardios (o Texto Bizantino), e, portanto, inferior aos textos ditos mais antigos e "melhores", representados principalmente pelos códices Sinaítico (\aleph) e Vaticano (B). Contudo, um exame atento e honesto dos papiros mais antigos, datados dos séculos II e III, revela uma verdade que desafia abertamente este dogma: as leituras do TR possuem um forte e inegável apoio nestas testemunhas primitivas, até mesmo em detrimento de Aleph e B.
A Antiguidade do TR Atestada por 𝔓45, 𝔓66 e 𝔓75
Os papiros 𝔓45 (Evangelhos e Atos, c. 250 d.C.), 𝔓66 (João, c. 200 d.C.) e 𝔓75 (Lucas e João, c. 175-225 d.C.) são testemunhas textuais de inestimável valor, por serem muito próximos da era apostólica. A sua antiguidade (século II e III) os coloca em uma posição cronológica igual ou até anterior aos celebrados códices aleph e B (século IV).
O que a pesquisa textual, baseada em colações detalhadas destes papiros, demonstra é o seguinte:
1. O Forte Testemunho de 𝔓45 (c. 250 d.C.)
Em diversas passagens, o Papiro 45, que contém partes dos Evangelhos e Atos, alinha-se com o Texto Bizantino — a base do TR — contra as leituras distintivas do Texto Alexandrino (B e Aleph). Isso significa que, já em meados do século III, a corrente textual que seria preservada no TR estava em circulação, e não era uma inovação posterior.
2. 𝔓66 e 𝔓75: Um Apoio Surpreendente para o TR
Embora o Papiro 66 e o Papiro 75 sejam frequentemente citados como evidências fortes para o Texto Alexandrino (e, portanto, para o Texto Crítico), uma análise mais aprofundada de suas variações revela um apoio significativo, e muitas vezes ignorado, ao Textus Receptus.
Leituras do TR com Mais Atestação Antiga: Em certas áreas dos Evangelhos, o TR possui mais atestação antiga nesses papiros (𝔓66, 𝔓75) do que o próprio B. Em alguns casos específicos, a concordância com o TR chega a ter o dobro de atestação antiga em comparação com o códice Sinaítico (aleph).
As Duas Correntes no Século II: A presença de leituras que concordam com o TR e leituras que concordam com o TC dentro do mesmo grupo de papiros antigos (𝔓66, 𝔓75, 𝔓45) sugere que as duas principais tradições textuais já circulavam nos primórdios da igreja. A afirmação de que o TR é apenas um texto tardio é, portanto, falsa. As raízes das leituras do TR são rastreáveis até, pelo menos, o final do século II.
Este dado é crucial. Ele destrói a alegação de que as leituras do TR são puramente invenções tardias do Texto Bizantino. Pelo contrário, mostra que as leituras que mais tarde foram consolidadas no TR (e que a igreja utilizou amplamente por séculos) já circulavam e eram atestadas nos primórdios da transmissão do Novo Testamento.
A Recepção do Texto: Por Que o TR Venceu?
É inegável que os papiros antigos contêm também leituras que se alinham tanto com o Texto Crítico (TC) quanto com o TR, mostrando uma fase inicial de "fluidez" textual.
Entretanto, se o Texto Crítico (representado por B e Aleph) tinha apoio em certos papiros antigos, porque suas leituras foram, posteriormente, abandonadas pela esmagadora maioria da igreja? A resposta reside na história da recepção textual:
O abandono eclesial: As leituras distintivas do Texto Alexandrino (TC) foram amplamente rejeitadas e substituídas pelo Texto Bizantino em toda a igreja de língua grega por mais de um milênio. Se o texto dos códices aleph e B fosse verdadeiramente superior e mais fiel, a providência divina e a consciência eclesiástica não o teriam descartado de forma tão maciça.
Rastreabilidade do TR: A ampla concordância das leituras do Textus Receptus com a tradição manuscrita posterior (o Texto Majoritário) e, o que é mais importante, com os próprios papiros antigos (𝔓45, 𝔓66, 𝔓75), demonstra que suas leituras não são uma inovação. Elas são rastreáveis até os séculos II e III d.C., representando a corrente textual que a igreja, em sua maioria, abraçou e preservou como o fiel registro das Escrituras.
Em suma, os papiros mais antigos não condenam o TR; eles fornecem-lhe um atestado de antiguidade robusto e muitas vezes superior ao dos códices preferidos pela crítica moderna. A sabedoria de Deus se manifestou na preservação de um texto que já tinha suas raízes lançadas nos próprios documentos mais primitivos.
Rui Alexandre Dias
Pastor IBBV São Carlos, SP.
.png)



Comentários