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A solidez da Comma Joanina na História

  • Foto do escritor: Rui Alexandre Dias
    Rui Alexandre Dias
  • 23 de out. de 2025
  • 4 min de leitura

A discussão sobre a autenticidade de 1 João 5:7a-8b, a chamada Comma Joanina ("Porque três são os que testificam no céu: o Pai, a Palavra, e o Espírito Santo; e estes três são um. E três são os que testificam na terra: o Espírito, e a água e o sangue; e estes três concordam num."), é um dos debates mais antigos e fervorosos da crítica textual bíblica. Embora muitos manuscritos gregos tardios a contenham e o debate paleográfico seja extenso, a evidência mais robusta e inegável para a antiguidade e aceitação desta cláusula reside nas citações e referências dos Pais da Igreja e em manuscritos antigos da tradição latina.


​O apoio patrístico e manuscrito demonstra que a essência da expressão trinitária contida na Comma era não apenas conhecida, mas ativamente utilizada para defender a doutrina da Trindade contra as heresias que a assaltavam nos primeiros séculos.

A Voz do Ocidente: Unidade e Defesa da Fé


​No Ocidente latino, a necessidade de uma formulação clara e concisa sobre a unidade da Divindade impulsionou o uso da Comma Joanina ou de formulações extremamente próximas e dela derivadas.


​Entre as figuras centrais que atestam essa tradição no Ocidente, destacam-se:


Jerônimo (c. 347–420), em seu Prólogo às Epístolas Católicas (399): O tradutor da Vulgata não apenas conhecia a cláusula, mas a defendia contra aqueles que a omitiam por razões heréticas, condenando explicitamente a ação dos "tradutores infiéis" que subvertiam a ordem das palavras para eliminar a menção da unidade trinitária.

Ambrósio de Milão (c. 339–397), em Do Espírito Santo (III:10): Ambrósio, um dos mais influentes bispos do século IV, cita o princípio da unidade das três Testemunhas Celestiais para reafirmar a divindade do Espírito Santo.


​O Testemunho dos Manuscritos Latinos Antigos

A defesa da Comma é notavelmente forte na tradição da Vetus Latina (Latim Antigo), a versão da Bíblia usada no Ocidente antes da Vulgata de Jerônimo. Enquanto a maioria dos manuscritos gregos mais antigos omite a cláusula, os manuscritos latinos a contêm consistentemente a partir de um período muito anterior aos manuscritos gregos que a incluem.


​Os primeiros manuscritos latinos sobreviventes que apoiam a Comma datam entre o século V e o VII, e incluem:


Fragmentos de Freising (Fragmenta Monacensia - c. 500 d.C.): Um dos fragmentos mais antigos do Latim Antigo que preserva a leitura da Comma após o versículo 8, testemunhando sua presença em um período crucial da história da Igreja.

Codex Speculum (século V ou VI): Embora seja uma coleção de citações e não uma Bíblia completa, este códice latino contém a Comma Joanina, indicando sua aceitação e uso no repertório bíblico da Igreja.

Codex Legionensis (meados do século VII): Um manuscrito latino antigo que atesta a presença da cláusula.

León Palimpsest (século VII): Outro manuscrito em latim que contém a cláusula, corroborando a tradição textual do Ocidente.

Esses manuscritos, juntamente com as citações patrísticas de figuras como Cipriano de Cartago (m. 258), que aludiu ao trecho ("E também está escrito do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo: 'E estes três são um'") – séculos antes do primeiro manuscrito grego a conter a Comma –, solidificam a visão de que a cláusula era um elemento estabelecido na tradição latina desde os primeiros séculos.


​A Perspectiva do Oriente: Exaltação da Unidade

Embora a tradição textual grega tenha uma trajetória diferente, o pensamento e a teologia da Comma Joanina são inconfundivelmente presentes e centrais nos Pais do Oriente, que lutavam contra as mesmas heresias.


​Gregório de Nazianzo (c. 329–389), nas Orações Teológicas (Orações nr. 31, 9 a nr. 39, 12): Conhecido como "O Teólogo", Gregório defendia apaixonadamente a Trindade, a Divindade do Espírito Santo e a co-igualdade do Filho, empregando uma teologia que só pode ser explicada pela compreensão da unidade essencial entre o Pai, o Verbo (a Palavra) e o Espírito Santo, exatamente como a Comma expressa.


​João Crisóstomo (c. 347–407), em Disputa Contra Judaizantes (I:3): Sua menção às "Três testemunhas abaixo, três testemunhas acima" revela uma estrutura hermenêutica que reconhece a dualidade do testemunho (terreno e celestial) e, mais importante, a supremacia do testemunho celestial da Divindade, confirmando a Trindade.

Conclusão

Fica portanto demonstrado que, independentemente da complexa história dos manuscritos gregos e latinos posteriores, a cláusula joanina possui um apoio patrístico e manuscrito inestimável tanto no Oriente quanto no Ocidente. Os Pais da Igreja—como Jerônimo e Ambrósio no Ocidente, e João Crisóstomo e Gregório de Nazianzo no Oriente—utilizaram o princípio da Comma Joanina como uma arma essencial para defender a fé ortodoxa nicena: a doutrina de que o Pai, a Palavra e o Espírito Santo são, em essência, um único Deus. A evidência dos manuscritos latinos antigos atesta que essa cláusula não foi uma adição tardia e isolada, mas parte de uma tradição textual ocidental estabelecida, muitas vezes defendida por sua clareza na exposição da Divindade.


​A solidez da Comma Joanina na história da Igreja não se baseia meramente em traços de tinta, mas na solidez da doutrina trinitária que ela expressa e que foi o alicerce da ortodoxia cristã. O seu testemunho ressoa através dos séculos, confirmando a convicção unânime da Igreja primitiva sobre a unidade de Deus em três Pessoas.


Rui Alexandre Dias

Pastor da IBBV, São Carlos SP.

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