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Por que 1 João 5:7-8 está na Bíblia?

  • Foto do escritor: Sociedade Bíblica Trinitariana do Brasil
    Sociedade Bíblica Trinitariana do Brasil
  • 9 de set. de 2025
  • 15 min de leitura

Por G. W. e D. E. Anderson

Sociedade Bíblica Trinitariana Hispânica


“Este é aquele que veio por água e sangue, isto é, Jesus Cristo; não só por água, mas por água e por sangue. E o Espírito é o que testifica, porque o Espírito é a verdade. Porque três são os que testificam no céu: o Pai, a Palavra, e o Espírito Santo; e estes três são um. E três são os que testificam na terra: o Espírito, e a água e o sangue; e estes três concordam num.” ( 1Jo. 5:6-8 | acf)


Nos últimos anos, vários seguidores da Sociedade têm escrito para perguntar sobre a inclusão de 1 João 5:7-8 na Bíblia, a denominada Coma Joanina (o trecho que aparece em negrito na citação anterior). Essas pessoas encontraram versões que omitem o trecho sem qualquer menção; [1] escritores que argumentam contra a inclusão do referido trecho; [2] e encontraram pregadores que evitam o texto para não gerar controvérsias. Esses seguidores consideram que o trecho, de pleno direito, deve estar nas Escrituras, como também o considera a Sociedade, assim como fizeram os redatores da Confissão de Fé de Westminster [e da Confissão de Fé Batista de 1689] [3] e como fizeram homens piedosos ao longo dos séculos. Três desses homens, cujas influentes obras abrangem três séculos — Matthew Henry, R. L. Dabney e Edward Hills — defenderam esse trecho em seus escritos. O objetivo deste artigo é expor os argumentos desses homens a favor da inclusão da Coma Joanina. 


Estamos rodeados de argumentações acadêmicas contra a inclusão desse texto. 

Como diz John Stott a respeito do versículo 7: 


“Isso, em sua totalidade, deve ser considerado como uma glosa, assim como as palavras “na terra” no versículo 8… As palavras não estão em nenhum manuscrito, versão ou citação em grego anterior ao século XV. Aparecem pela primeira vez em um obscuro manuscrito latino do século IV, e conseguiram entrar na Versão Autorizada (VA) porque Erasmo, com relutância, as incluiu na terceira edição de seu texto. Estão corretamente ausentes até mesmo da margem da Versão Revisada (VR) e da Versão Revisada Padrão (VRP)." [4]


O acadêmico de Grego Bíblico do Seminário Teológico de Princeton, B. M. Metzger, observa que: 


“Um manuscrito do Novo Testamento completo, datado do final do século XV ou início do século XVI…é o primeiro manuscrito grego descoberto que contém o trecho relativo aos Três Testemunhos Celestiais (1 João 5:7-8)." [5]


Diante de tais afirmações, como seria possível argumentar a favor da inclusão do trecho? 

Mas há extensas razões acadêmicas para a inclusão de 1 João 5:7-8, e muitos estudiosos têm apresentado essas razões. Por isso, citamos as obras de três deles.  Grande parte desta informação é reproduzida literalmente de seus escritos, e será de caráter técnico; no entanto, o leitor poderá acompanhar os pontos principais da posição e encontrará edificação nos comentários desses homens sobre a Palavra de Deus. 


Evidência Textual a favor da inclusão


Em primeiro lugar, deve-se dizer que a afirmação de Metzger, à primeira vista, poderia levar alguém a pensar que 1 João 5:7-8 não aparece em nenhum escrito anterior a 1500. 


No entanto, o MS61 foi o primeiro manuscrito grego descoberto que contém o trecho. 


Não é o manuscrito mais antigo a contê-lo, mas simplesmente o primeiro manuscrito encontrado que o incluía. [6] Metzger admite posteriormente que a Coma Joanina também aparece em manuscritos do século XII, do século XIV e do século XVI. “A menção mais antiga da Coma está em um tratado em latim do século IV intitulado “Liber apologeticus”. [7] Edward Hills admite que, para esse trecho, não há tanto respaldo em manuscritos gregos como há para muitos outros textos do Novo Testamento. Contudo, há abundância de evidências de outros manuscritos antigos em seu apoio.  Como diz Hills: 


“As primeiras menções incontestáveis da Coma Joanina aparecem nos escritos de dois bispos espanhóis do século IV [...] No século V, a Coma Joanina foi citada por vários escritores africanos ortodoxos para defender a doutrina da Trindade contra as negações dos Vândalos, que… aderiam fanaticamente à heresia ariana.” “Nas versões latinas e nos escritos dos Pais da Igreja latina encontram-se evidências da existência precoce da Coma Joanina.”


Entre eles estão Cipriano (c. 250) e Cassiodoro (480–570), bem como um manuscrito do século V ou VI em latim arcaico, e o “Speculum”, um tratado que contém um texto em latim arcaico.  Ela também aparece na grande massa de manuscritos posteriores da Vulgata e na edição Clementina da Vulgata. [8]


Evidência Interna a favor da inclusão


No século XVII, os redatores da Confissão de Fé de Westminster aceitaram a inclusão de 1 João 5:7-8 e a utilizaram para defender a doutrina da Trindade. Outros, considerando o trecho como Escritura, apresentaram evidência interna para sua inclusão. Essa evidência, que vem do próprio texto, tem sido citada ao longo dos séculos em defesa tanto do trecho quanto da Trindade, da qual ele dá testemunho.


O século XVIII: Matthew Henry 


Matthew Henry (1662–1714), o comentarista não conformista da Bíblia nascido no País de Gales, ‘era um ministro ortodoxo, fiel, humilde e devoto do evangelho, um afetuoso pastor de almas e um sábio pai espiritual. [Era] famoso por sua Exposição do Antigo e do Novo Testamento, hoje comumente conhecida como os Comentários de Matthew Henry… O valor de seus Comentários reside não em sua ênfase crítica, mas na prática e devocional’. [9]


Henry [10] não ignorou o apoio dos manuscritos gregos para 1 João 5:7–8, mas a esse respeito diz: ‘Alega-se que muitos manuscritos gregos antigos não o possuem. Não entraremos aqui na controvérsia. Parece que os críticos não concordam sobre quais manuscritos o incluem e quais não; tampouco nos informam suficientemente sobre a integridade e o valor dos manuscritos que consultam… Mas deixemos que os prudentes compiladores de cópias se ocupem desse assunto. Há algumas conjecturas racionais que parecem sustentar o texto e a leitura atuais’. [11] Nesse sentido, Henry apresenta várias ‘conjecturas racionais’:


(1.) Se [omitirmos] o v. 7, [o v. 8] parece também uma… repetição do que foi incluído no v. 6… Isso não chega a conceder uma introdução tão nobre a estas três testemunhas como o faz a nossa leitura atual. (2.) Observa-se que em muitas cópias se lê essa cláusula distintiva, na terra: três são os que dão testemunho na terra. Ora, isto implica uma oposição visível a alguma testemunha ou testemunhas em outro lugar e, consequentemente, dizem-nos os adversários do texto, deve-se supor que esta cláusula foi omitida na maioria dos livros que requerem o v. 7. Mas, pela mesma razão, isto deveria ser assim em todos. Tomemos o v. 6… Não se acrescentaria agora de forma natural e apropriada, Três são os que dão testemunho na terra, a menos que devamos supor que o apóstolo queira nos dizer que todas as testemunhas o são enquanto estão na terra, quando, no entanto, ele nos assegura que uma é infalivelmente verdadeira, ou até mesmo a própria verdade. (3.) Observa-se que há uma variedade de leituras inclusive no texto grego… (4.) O sétimo versículo é muito coincidente com o estilo e a teologia de nosso apóstolo… É, então, sumamente apropriado à linguagem e ao evangelho deste apóstolo mencionar o Espírito Santo como testemunha de Jesus Cristo. Então, (5.) Era muito mais fácil que um transcritor, por desviar a vista, ou pela obscuridade da cópia, apagada ou indecifrável na parte superior ou inferior de uma página, ou desgastada no tipo de material em que se escrevia na antiguidade, perdesse e omitisse a página, do que um interpolador a inventasse e a inserisse. Deveria ser muito audacioso e imprudente quem esperasse escapar da detecção e da vergonha; e também profano, quem se atrevesse a fazer um acréscimo em um livro que se supõe sagrado. E, ademais, (6.) Dificilmente se pode supor que, quando o apóstolo representa a fé do cristão na conquista do mundo e os fundamentos nos quais se baseia para sua adesão a Jesus Cristo, e o diverso testemunho que foi dado de Jesus Cristo no mundo, ele omitiria o testemunho supremo que o acompanhou, especialmente quando consideramos que sua intenção era inferir, tal como o faz (versículo 9)… Ora, nas três testemunhas na terra não estão nem todas as testemunhas de Deus, nem certamente uma testemunha que seja verdadeira e imediatamente Deus. Os oponentes antitrinitários ao texto negarão que individualmente o Espírito, ou a água, ou o sangue, seja o próprio Deus; mas, em nossa leitura atual, há aqui uma nobre enumeração das várias testemunhas e testemunhos que fundamentam a verdade do Senhor Jesus e a divindade de sua instituição. Eis aqui o mais excelente resumo ou compêndio dos motivos para a fé em Cristo, das credenciais que o Salvador traz consigo e das evidências de nosso Cristianismo que se possa encontrar, penso eu, no livro de Deus, motivo pelo qual, mesmo renunciando à doutrina da divina Trindade, o texto merece plena aceitação. [12]


‘Com estes fundamentos racionais do nosso lado’, diz Henry, ‘avançamos’. [13] Ele então continua com uma análise da passagem em si, com sua ‘trindade de testemunhas celestiais’, [14] e finaliza esta seção afirmando que ‘Destas três testemunhas (que são mais diferentes que as três anteriores) se diz propriamente tanto que sejam um como que são para um, que são para um único e mesmo propósito e causa, ou que concordam em um, em uma e na mesma coisa entre si e no mesmo testemunho com aqueles que testemunham desde o céu. [15]


O século XIX: Robert Lewis Dabney 


Ademais, 1 João 5:7–8 não carece de testemunhas no século XIX. Entre elas, é bem conhecido Robert Lewis Dabney.


Dabney ‘foi a figura mais proeminente e o principal guia teológico da Igreja Presbiteriana [Americana] do Sul, o teólogo mais prolífico que a Igreja produziu até hoje… Foi igualmente grande como pregador, como professor e como escritor… [Ajudou a] reorganizar a fé histórica das Igrejas Reformadas diante do fermento teológico que marcou os primeiros anos do século XIX’. [16] Sobre a Comma Joanina, diz Dabney: ‘O frequentemente questionado texto em 1 João v. 7 também nos fornece uma boa instância do valor daquela evidência interna que os críticos recentes pretendem descartar. [17]


Então, a evidência interna contra esta remoção se encontra nos seguintes pontos fortes:


Primeiro, se isso fosse feito, o artigo, o numeral e a partícula no masculino… são postos em concordância direta com três substantivos neutros – uma dificuldade gramatical insuperável e bastante evidente. Mas se as palavras questionadas forem mantidas, elas concordam diretamente com dois substantivos neutros e um masculino… onde, segundo uma regra sintática bem conhecida, os masculinos do grupo controlam o gênero sobre o neutro conectado a eles…


Segundo, se a eliminação for feita, o oitavo versículo, ficando ao lado do sexto, nos dá uma repetição extremamente óbvia, estranha e aparentemente sem sentido do testemunho do Espírito, duas vezes em sucessão imediata.


Terceiro, se a eliminação for feita, a proposição no final do oitavo versículo [e estes três concordam em um], contém uma referência ininteligível… ‘E estes três concordam com aquele Um (mencionado anteriormente)’… Qual é a unidade mencionada previamente com a qual estes três concordam? Se o sétimo versículo for eliminado, não há nenhuma… Se mantivermos o sétimo versículo, tudo fica claro: as três testemunhas terrenas testificam sobre aquela unidade mencionada previamente, constituída pelo Pai, pelo Verbo e pelo Espírito. [18]


Há uma coerência no conjunto que apresenta uma evidência interna muito sólida do caráter genuíno do texto recebido. [19]


Dabney recorda a seguir a seus leitores as circunstâncias nas quais o apóstolo João escreveu sua primeira epístola. ‘O objeto deste escrito era advertir [os destinatários] contra os enganadores (ii.26), cuja heresia, predita desde muito tempo, estava agora desenvolvida e se caracterizava por uma negação da própria condição de filho (ii.26) e encarnação (iv.2) de Jesus Cristo’. Em resposta a estas heresias, em 5:7 o apóstolo declara ‘a unidade do Pai, do Verbo e do Espírito, e com a mais estrita precisão’. Ele declara


a própria humanidade de Jesus, e o real derramamento e aplicação por parte do Espírito daquela água e sangue de cuja efusão ele mesmo foi testemunha ocular, e do qual tão enfaticamente dá testemunho em seu evangelho, no capítulo xix. 34,35… Agora, quando ouvimos o apóstolo dizer a seus ‘filhos’, no capítulo antes citado de sua própria Epístola, que as duas heresias contra cujos enganos pretendia guardá-los mediante este escrito eram estas, a negação da qualidade de filho de Deus de Cristo e a negação de sua encarnação, e… o vemos em seu testemunho de encerramento excluir precisamente estes dois erros… Não é difícil de crer que, nestas circunstâncias, ele escreveria qualquer coisa diferente do que o texto recebido lhe atribui? Se mantivermos o sétimo versículo, então a passagem completa se estrutura, com sabedoria apostólica, de modo a excluir de uma só vez ambas as heresias. [20]


Dabney admite abertamente que, segundo a estrita tradição dos manuscritos gregos, não há um respaldo sólido em manuscritos para a inclusão de 1 João 5:7. Mas aqui, ‘a Igreja latina está em posição oposta à Igreja grega’. [21] ‘Há sólidos fundamentos prováveis para concluir que o texto das Escrituras vigente no Oriente recebeu uma modificação maliciosa nas mãos do famoso Orígenes’. [22]


Aqueles que estão mais familiarizados com a história do pensamento cristão sabem bem que Orígenes foi o grande corruptor, e a fonte, ou no mínimo o primeiro canal, da quase totalidade dos erros especulativos que assolaram a igreja em épocas posteriores… Ele descria da plena inspiração e infalibilidade das Escrituras, sustentando que os homens inspirados apreenderam e afirmaram muitas coisas de forma obscura… Expressamente negou a unidade consubstancial das Pessoas e a própria encarnação da Divindade — as proposições mesmas que com mais clareza se afirmam nos diversos escritos doutrinais que temos em revisão. [23] Deixemos que o leitor imparcial escolha… à luz destes fatos. Cremos que concluirá conosco que o peso da probabilidade está extremamente a favor desta teoria, a saber, que os anti-Trinitarianos, ao encontrar certos códices nos quais estas leituras doutrinais já se haviam perdido através da crítica dissoluta de Orígenes e sua escola, os difundiram com diligência, ao mesmo tempo que também fizeram o que ousaram para somar às omissões de leituras similares. [24]


O Século XX: Edwards F. Hills


Durante o século XX, mais e mais cristãos foram levados a crer que a Comma Joanina não é propriamente parte da Escritura, por sua exclusão ou posição entre parênteses em muitas das versões modernas das Escrituras. Não obstante, homens e mulheres piedosos continuam a sustentar a inclusão da passagem. Entre estes se encontra Edward Freer Hills. Hills ‘foi um distinto graduado em Latim e Phi Beta Kappa da Universidade de Yale. Também obteve um título em Teologia do Seminário Teológico de Westminster e um mestrado em Teologia do Seminário Teológico de Columbia’, e o mestrado em Teologia em crítica textual do Novo Testamento de Harvard. [25] Ainda assim, em meio a estas escolas de crítica textual, Hills manteve um estrito conservadorismo que o situou entre os mais firmes defensores do Texto Recebido.


Hills afirma que a Comma, certamente, não conta com o respaldo em manuscritos gregos de muitas passagens da Escritura. Erasmo omitiu a Comma na primeira edição (1516) de seu Novo Testamento impresso em grego, mas a reincluiu na terceira edição (1522). [26] Alguns creem que a inclusão se deve a um engano; ‘mas, qualquer que tenha sido a causa imediata, em última análise, não foi um engano o responsável pela inclusão da Comma Joanina no Texto Recebido, mas sim o uso da Igreja de fala latina. Foi este uso que fez com que se considerasse que esta leitura deveria estar incluída no texto grego e que se ansiasse por mantê-la ali uma vez alcançada sua inclusão. Bem podemos crer que por trás deste uso estava a providência orientadora de Deus’. [27]


Como já foi assinalado, Hills fornece ampla evidência de que a passagem estava em uso muito antes do século XV. Mas há muito mais evidências para a inclusão da passagem, não somente esta. ‘Com base na evidência externa, é no mínimo possível que a Comma Joanina  seja uma leitura que alguém removeu do Novo Testamento em grego, mas que foi preservada no texto latino através do uso da Igreja de fala latina, e esta possibilidade se aproxima cada vez mais da probabilidade à medida que consideramos a evidência interna’. [28]


Em primeiro lugar, como se originou a Comma Joanina se não fosse genuína, e como chegou a ser interpolada no texto do Novo Testamento em latim? … Por que não contém a fórmula trinitária usual, isto é, o Pai, o Filho e o Espírito Santo? Por que mostra esta combinação singular, que jamais se encontra em outro lugar: o Pai, o Verbo e o Espírito Santo? Em segundo lugar, a omissão da Comma Joanina parece deixar a passagem incompleta. Porque é um uso frequente na Escritura apresentar as verdades ou advertências solenes em grupos de três ou quatro, por exemplo, a repetição de Três coisas… sim, a quarta em Provérbios 30, e a frase constantemente recorrente, por três transgressões… e pela quarta, do profeta Amós… Consequentemente, ajusta-se ao uso bíblico esperar que em 1 João 5:7-8 a fórmula três são os que testificam se repita pelo menos duas vezes. Se a Comma Joanina for incluída, a fórmula se repete duas vezes. Se a Comma for omitida, a fórmula se repete uma única vez, o que parece estranho. Em terceiro lugar, a omissão da Comma Joanina acarreta uma dificuldade gramatical. Os termos espírito, água e sangue são do gênero neutro, mas em 1 João 5:8 são tratados como masculinos. Se a Comma Joanina for rejeitada, esta irregularidade é difícil de explicar. Habitualmente, diz-se que em 1 João 5:8, o espírito, a água e o sangue são personificados, e que essa é a razão para a adoção do gênero masculino. Mas torna-se difícil ver de que modo tal personificação implicaria a mudança do neutro para o masculino. Porque no versículo 6 a palavra “Espírito” refere-se claramente ao Espírito Santo, a Terceira Pessoa da Trindade. Com certeza neste versículo a palavra Espírito é “personificada”, e, no entanto, utiliza-se o gênero neutro. Portanto, dado que a personificação não provocou uma mudança de gênero no versículo 6, em justiça não se pode argumentar que seja a causa de uma mudança dessa natureza no versículo 8. Não obstante, se a Comma Joanina for conservada, torna-se evidente um motivo para colocar os substantivos neutros espírito, água e sangue no gênero masculino. Isso se deve à influência dos substantivos Pai e Verbo, que são masculinos. Assim, a hipótese de que a Comma Joanina seja uma interpolação está cheia de dificuldades. [29]


O século XXI: Conclusões


A opinião sobre 1 João 5:7 ao longo dos séculos, sustentada por muitos homens piedosos, tem sido que a passagem e seu testemunho da Trindade de pleno direito devem conservar seu lugar nas Escrituras. Por isso, a Sociedade Bíblica Trinitária continua a considerar esta passagem como inspirada por Deus e benéfica para a doutrina. Assim como nossos irmãos nos séculos anteriores, mantemos o testemunho fiel da doutrina bíblica da Trindade, como se encontra em 1 João 5:7-8, a fim de que todos os homens possam conhecer nosso Deus trino: Pai, Verbo e Espírito Santo.



Traduzido em português por Efraim Mesquita, em: 09 de setembro de 2025.


Notas:


[1] No momento em que este artigo foi originalmente escrito (1993), entre as versões em inglês que omitiam a passagem sem qualquer nota, incluíam-se a American Standard Version, a New Century Version, a Revised Standard Version, a Good News Bible (que algumas sociedades bíblicas utilizam para suas traduções modernas para outros idiomas), a Revised English Bible, a Modern Language Bible, a New English Bible e o New Testament in Modern English de Phillips. Além disso, algumas versões aumentam a confusão sobre esta passagem ao renumerar os versículos. Entre estas estão a American Standard, a New American Standard Bible e a Revised Standard Version. Um problema adicional é que, desde 1993, muitas versões em inglês foram atualizadas ou editadas, por vezes sem indicar onde as modificações foram feitas. Por isso, é possível que a lista não reflita traduções atuais de 1 João.


[2] Veja a citação de John Stott no texto.


[3] Confissão de Fé de Westminster, II.3. Nas provas da Escritura para a afirmação da Trindade, “Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo”, cita-se 1 João 5:7.


[4] J. R. W. Stott, The Epistles of John (Grand Rapids, MI, EUA: Wm B. Eerdmans Publishing Company, 1979), p. 180.


[5] MS61 [Bruce M. Metzger, The Text of the New Testament: Its Transmission, Corruption, and Restoration (Nova York: Oxford University Press, 1992), p. 62].


[6] Este tipo de informação, que passou a figurar nas margens de muitas edições da Bíblia, provocou muita confusão em nosso tempo e, desse modo, confusão entre os cristãos quanto à validade da passagem. Em 1993, a Ryrie Study Bible manifestou que ‘o versículo 7 deveria terminar com a palavra testemunho. O resto do v. 7 e parte do v. 8 não estão em nenhum manuscrito grego antigo, apenas em manuscritos latinos posteriores’ (p. 1918). A New International Version de 1984 sustenta que os vv. 7–8 provêm de ‘manuscritos tardios da Vulgata’ e que ‘não se encontram em nenhum manuscrito grego anterior ao século XVI’ (p. 906). A New American Standard Bible original diz que ‘em uns poucos [manuscritos] tardios aparece’ a passagem questionada (p. 1066). A New Revised Standard Version diz que ‘em umas poucas autoridades se leem (com variações)’ os versículos (p. 261). A Amplified Version tem as palavras questionadas em itálico, mas не fornece anotação alguma a respeito do porquê (p. 380). A Scofield Reference Bible afirma que ‘geralmente se aceita que o v. 7 não tem autoridade real, e foi inserido’ (p. 1325); a New Scofield Reference Bible reitera esta opinião. Inclusive a New King James Version indica que a passagem не merece a condição de Escritura [‘NU, M omitem as palavras desde no céu (v. 7) até na terra (v. 8). Apenas quatro ou cinco manuscritos muito tardios contêm estas palavras em grego’ (p. 1346)]. Mas com a edição contínua destas versões da Bíblia em inglês, estas notas estão sujeitas a mudanças.

Metzger enumera Greg. 88 do século XII, Tisch. w 110 do século XVI e Greg. 629 do século XIV como manuscritos que contêm 1 João 5:7 (Ibid., pp. 101–102).


[8] Os bispos hispânicos são Prisciliano e Idácio Claro (Edward F. Hills, The King James Version Defended [Des Moines, Iowa, EUA: The Christian Research Press, 1984], pp. 209–10).


[9] Elgin S. Moyer, The Wycliffe Biographical Dictionary of the Church (Chicago, IL, EUA: Moody Press, 1982), p. 188.


[10] A seção no comentário de Henry sobre 1, 2 e 3 João foi completada postumamente, utilizando as notas e escritos de Henry.


[11] Matthew Henry, Matthew Henry’s Commentary on the Whole Bible (Iowa Falls, Iowa, EUA: Riverside Book and Bible House, s.d.), VI.1090–91.


[12] Ibid., VI.1091–92.

[13] Ibid., VI.1092.

[14] Ibid.

[15] Ibid., VI.1094.

[16] R. L. Dabney, Discussions of Robert Lewis Dabney, esboço biográfico por B. B. Warfield, 2 vol. (Carlisle, PA, EUA: The Banner of Truth Trust, 1967), contracapa.

[17] Ibid., 1.377.

[18] Ibid., 1.378.

[19] Ibid., 1.380.

[20] Ibid., 1.379–81.

[21] Ibid., 1.381–82.

[22] Ibid., 1.382.

[23] ‘As opiniões de Orígenes sobre a Trindade variavam entre o sabelianismo e o arianismo’ (Ibid., 1. 383–84).

[24] Ibid., 1.389.

[25] Hills, contracapa.

[26] Segundo Hills, Erasmo reinseriu esta passagem ‘com base no manuscrito 61, que posteriormente foi respaldado pela presença do versículo no Codex Ravianus, na margem de 88, e em 629’ (Ibid., p. 209).

[27] Ibid., pp. 209–10.

[28] Ibid., p. 210.

[29] Ibid., pp. 210–12.

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