A Incorreta Distinção entre Texto e Cânon
- Taylor DeSoto

- 22 de out. de 2025
- 7 min de leitura
Isenção de responsabilidade: Este artigo é bastante longo. Eu pretendia que fosse um artigo curto, mas ele se transformou em um ensaio.
Contornando a discussão
Criar categorias distintas para o texto do Novo Testamento e o Cânon do Novo Testamento é um erro teológico e lógico porque a substância do Cânon é definida pelo texto. Pode ser uma distinção útil fazer ao definir termos, mas não faz sentido tratá-los separadamente como categorias teológicas diferentes. É um erro que tem sido propagado por alguns dos mais conceituados eruditos dentro da igreja cristã moderna. Isso provavelmente se deve ao fato de que defender a lista canônica de livros é muito mais simples do que defender o texto dentro desses livros. É provavelmente a afirmação teológica menos controversa dentro da erudição textual, e quaisquer disputas sobre quais livros o integral são totalmente rejeitadas pela mais ampla igreja cristã.
A razão pela qual os estudiosos devem separar o texto e o cânon em categorias distintas é porque se eles não estiverem separados, então o atual esforço e defesa da crítica textual é claramente tolo. O argumento básico para defender essa distinção é que o cânon das Escrituras chegou a um consenso não oficial na era patrística da igreja enquanto o texto nunca alcançou o mesmo consenso. Aqueles do lado do TR afirmam que esse consenso ocorreu logo após a chegada da imprensa à Europa.
Parece chocante que aqueles que defendem o Texto Crítico defendam um texto aberto das Escrituras, mas esse é realmente o caso. Qualquer endosso do esforço contínuo de crítica textual que afirma ser posterior ao “original” é uma admissão de que o texto do Novo Testamento não está encerrado. Se fosse o caso do Texto Crítico estar fechado, então não haveria nenhum esforço de Crítica Textual do Novo Testamento que fosse endossado pelos cristãos.
Interagindo com o argumento
O argumento básico é que, embora possamos ter certeza da originalidade de uma alta porcentagem do Novo Testamento, não podemos ter certeza absoluta. Dan Wallace apresentou a versão mais popular desse argumento, que James White empregou em seu mais recente debate em vídeo com o pastor Jeff Riddle. O argumento é que, embora não possamos ter certeza absoluta do texto do Novo Testamento, também não temos motivos para ser radicalmente céticos em relação ao texto. Ele argumenta que há um ponto em algum lugar entre o ceticismo radical e a certeza absoluta quando se trata de nossa Bíblia. Há um grande problema com essa visão do ponto de vista lógico, teológico e prático.
Problemas lógicos com a separação de Texto e Cânon em categorias distintas
Logicamente, se dissermos que o cânon das Escrituras está separado do texto das Escrituras, temos que definir o que exatamente compõe a substância de cada uma dessas categorias. As distinções de categoria são inúteis, a menos que realmente definamos o que está nessas categorias.
No contexto desta discussão, essas duas categorias são tipicamente definidas como os livros da Bíblia (cânon) e o texto da Bíblia (texto). De acordo com este argumento, enquanto o cânon estiver disponível, a igreja cristã tem “A Bíblia” em sua posse. “A Bíblia” existe apesar do texto não estar claramente definido. Isto não procede, visto que a substância da Bíblia não é simplesmente definida pelos nomes dos livros, pois ela inclui o texto dentro desses livros. Você não diria que um copo vazio que anteriormente continha suco de laranja agora é um copo de suco de laranja, simplesmente porque em um ponto havia suco de laranja nele. Você diria que é um copo vazio.
A conclusão lógica disso exige necessariamente que se você disser que temos a Bíblia (cânon), mas temos apenas x% do texto, então realmente temos apenas x% da Bíblia. O copo tem um pouco de suco. Veja, a Bíblia não é definida apenas pelo cânon, é definida pelo texto e pelo cânon em combinação. Você não pode tomar um copo de suco de laranja sem o copo e o líquido. É por isso que esta distinção de categoria é logicamente errada. Você não pode dizer que tem algo quando a substância que define essa coisa não está disponível.
A pessoa que exige essa distinção de categoria está, na verdade, argumentando que “A Bíblia” é algo que pode ser obtida sem uma definição clara da substância que compõe a Bíblia. Simplificando, a distinção de categoria de “texto” é feita sem definir realmente o que é esse texto. Usando símbolos, o argumento fica assim:
T = Texto Completo
C = Cânon Completo
t = Lugares estáveis no texto
x = Lugares instáveis no Texto
B = Livros da Bíblia
A metodologia do TR diz que C = T. O cânon é feito de palavras, e sem essas palavras, isto não é o cânon. Temos o cânon e o texto dentro desse cânon, portanto temos a Bíblia.
A metodologia do Texto Crítico diz que C = B e que T = t + x. O cânon é composto dos livros, e esses livros compõem a Bíblia. A Bíblia tem palavras, mas não precisamos de todas elas para ter a Bíblia. A Bíblia não é necessariamente definida exatamente pelas palavras contidas nela.
Uma vez que não podemos encontrar o valor de t + x empiricamente, os apologistas do Texto Crítico argumentam que C = Bíblia. De acordo com este argumento, uma vez que conhecemos os nomes dos livros que pertencem ao cânon, temos a Bíblia. Podemos “mexer” com as palavras e o resultado desse mexer não muda a substância da Bíblia, porque a Bíblia não é definida pelo texto. Esta é a conclusão necessária, caso o texto da Bíblia possa mudar enquanto diz-se que ainda temos a mesma Bíblia que tínhamos antes dessas mudanças.
Problemas teológicos com a separação do texto e do cânon em categorias distintas
Se o texto da Bíblia pode ser “consertado” ou alterado sem que a Bíblia mude, a Bíblia não é fundamentalmente definida pelo texto que está dentro dela. Isso significa que qualquer declaração teológica que afirme que a Bíblia é a “própria Palavra de Deus” está errada. Você teria que argumentar que a Palavra de Deus original como foi entregue aos profetas e apóstolos era a própria Palavra de Deus quando foi escrita, e que o texto que foi entregue então é diferente do texto que temos hoje. Isso é essencialmente o que a doutrina da inerrância ensina. A Bíblia original era perfeita, mas a Bíblia que temos hoje não é em um grau ou em outro. Isso é incompatível com qualquer doutrina que adote qualquer forma de Sola Scriptura porque, de acordo com essa estrutura teológica, não temos a substância da Escritura que é apresentada pela declaração doutrinária.
Problemas práticos com a separação de texto e Canon em categorias distintas
Se é verdade que os manuscritos originais do Novo Testamento eram perfeitos, mas não temos mais tudo quanto esses manuscritos originais apresentam, então, falando em termos práticos, temos zero fundamento para defender qualquer tipo de doutrina da Sola Scriptura como fundamento para todas as matérias de fé e prática. Em vez disso, teríamos que adaptar essa doutrina para afirmar que as Escrituras são suficientes para as coisas referentes à justificação. Costuma-se dizer: “Todas as Bíblias contêm o que é necessário para que alguém seja salvo”. Isso é fundamentalmente diferente de todas as coisas relativas à fé e à prática. Falando praticamente, de acordo com essa doutrina, a igreja cristã hoje tem tudo o que é necessário para a salvação, e parte ou a maior parte do que precisam para a prática.
A quantidade de incertezas não foi e não pode ser definida
É especialmente importante insistir no fato de que qualquer porcentagem de certeza que tenhamos no texto das Escrituras é necessariamente arbitrária se adotarmos o método do Texto Crítico. No momento da redação deste artigo, não houve nenhuma tentativa de definir quais palavras estão seguras no texto e quais não estão. Assim, quando um proponente do texto crítico lança um número, como 99,9%, não é respaldado por nenhuma análise empírica e é, por definição, arbitrário. Se alguém quisesse realmente fazer uma afirmação como esta, ele teria que realmente apresentar um texto base no qual todas as palavras incluídas são certas (t), e então apresentar as palavras que são incertas (x). Se t + x = 1, ele teria que definir t e x e ainda fazer a afirmação ousada de que a coleção de material existente = 1, ou o original. A maioria das formulações modernas nem mesmo define t + x = 1, porque não há como estabelecer que 1 existe em nossos materiais existentes de acordo com a metodologia do Texto Crítico. Na verdade, os estudiosos modernos dizem que 0,9 < t + x < 1. O problema é que esse limite não pode ser traçado e não pode ser definido pela metodologia crítica moderna, então o argumento para qualquer quantidade de certeza é puramente baseado no que podemos chamar de “palpite erudito”.
A realidade é que, uma vez feita a distinção entre cânon e texto, deve-se necessariamente defender a preservação de cada categoria em bases diferentes. Diz-se que o cânon foi providencialmente preservado, mas o texto não. Uma vez que “A Bíblia” está sendo definida principalmente como o cânon, os proponentes desse argumento podem alegar que “A Bíblia” foi preservada, apesar da substância que compõe a Bíblia ter “muitos lugares” onde é incerta ou obscura. Essa distinção de categoria é feita simplesmente para afirmar a doutrina da preservação em seu valor nominal, enquanto na verdade nega a substância dela. Na melhor das hipóteses, esta doutrina afirma que o que temos é um texto parcialmente preservado, ou um texto quase preservado.
Se você chegou até aqui, concluirei resumindo meu argumento da forma mais simples possível. A distinção entre texto e cânon é ilógica porque a substância do cânon é uma parte necessária da definição do próprio cânon. Assim como um copo vazio que anteriormente continha suco de laranja não é um copo de suco de laranja, os livros das Escrituras que anteriormente continham um texto completo não são uma Bíblia. Os apologistas do texto crítico dizem que o copo de suco de laranja está 99,9% cheio, mas também dizem que não têm como afirmar o quão cheio o copo está. Em outras palavras, o copo é pintado de preto e uma parte desconhecida da parte superior do copo foi extirpada. Eles não têm como dizer a altura original do copo ou quanto líquido o copo originalmente possuía, apenas que tem certa quantidade de líquido, agora. Eles supõem que o líquido atualmente no copo é pelo menos 90% do líquido que estava originalmente lá, mas não têm como realmente testar ou apoiar essa hipótese. Eles podem dizer que temos uma Bíblia porque podem ver o copo, mas não podem dizer o que é essa Bíblia porque não podem medir o líquido ou mesmo saber quanto líquido o copo continha originalmente.
Em oposição a essa visão, a visão tradicional das Escrituras é que o cânon contém o texto, e Deus preservou e entregou ambos à Sua igreja, até hoje.
Traduzido em Português por Ícaro Alencar de Oliveira. Rio Branco, Acre, Brasil: 08/08/2022.
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