As emendas conjectuais e o perigo de substituir o texto inspirado por suposições humanas
- Rui Alexandre Dias

- 20 de nov. de 2025
- 3 min de leitura
Atualizado: 15 de jan.
Ao tratarmos da preservação das Escrituras, encontramos um tema delicado e frequentemente desconhecido para grande parte dos crentes: as chamadas emendas conjecturais. Na crítica textual moderna, presente em edições como o Nestle-Aland 27 e 28 (NA27/NA28), aparecem propostas de certos estudiosos que sugerem que determinadas palavras ou expressões encontradas nos manuscritos não seriam originais. Assim, oferecem uma leitura sem qualquer apoio manuscrito, apenas baseada em argumentação interna ou preferências estilísticas. É justamente isso que caracteriza uma emenda conjectural: uma tentativa de reconstruir o texto original sem nenhuma evidência documental, dependendo inteiramente da imaginação do crítico.
É crucial entender que nenhuma dessas emendas conjecturais aparece no texto principal do NA27 ou do NA28. Ambas as edições mantêm no corpo do texto apenas leituras que possuem testemunho manuscrito. As conjecturas aparecem somente no aparato crítico, registradas porque algum estudioso, em algum momento da história, sugeriu aquela hipótese.
Um exemplo clássico, presente tanto no aparato do NA27 quanto do NA28, aparece em 2 Pedro 3.10. O texto preservado em todos os manuscritos traz “serão descobertas” (εὑρεθήσεται). Contudo, Westcott e Hort sugeriram uma leitura inexistente em toda a tradição manuscrita: “não serão encontradas” (οὐχ εὑρεθήσεται). Essa proposta jamais apareceu em manuscrito algum, sendo puramente conjectural. Outro exemplo mencionado no aparato é Atos 16.12, onde alguns estudiosos propuseram alterar ou remover o termo “primeira cidade” (πρώτης πόλεως) por considerarem a geografia difícil; apesar disso, todos os manuscritos preservam a leitura tradicional, e as conjecturas permanecem apenas como teorias. Um terceiro caso conhecido aparece em 1 Coríntios 6.5, onde Richard Bentley sugeriu interpretar o texto como referindo-se a “um sábio específico”, propondo a forma “ἑνὶ σοφῷ”, inexistente em qualquer manuscrito grego, versão antiga ou citação patrística. Esse tipo de intervenção, apesar de registrada no aparato, nunca fez parte de qualquer testemunho histórico.
O perigo dessa prática reside no fato de deslocar a autoridade textual da preservação histórica, conduzida providencialmente por Deus, para o juízo subjetivo de críticos modernos. Quando uma leitura sem apoio manuscrito é proposta como superior ao texto real preservado, inverte-se a ordem da autoridade: a Escritura deixa de ser aquilo que Deus guardou e passa a ser aquilo que o crítico deseja que fosse. Ainda que em alguns casos os estudiosos sejam movidos por boas intenções, a fragilidade da conjectura permanece evidente. Não se trata de variantes, mas de suposições; não se trata de texto preservado, mas de reconstruções hipotéticas. É precisamente aqui que o risco teológico se manifesta: abre-se espaço para que o homem se torne juiz da Palavra, e não seu humilde leitor.
Em contraste com essa tendência, destaca-se a firmeza do Texto Recebido (TR), que não adota emendas conjecturais em hipótese alguma. Todas as leituras do TR são tomadas de manuscritos existentes, versões antigas ou citações ininterruptas dos pais da Igreja. Nenhuma palavra do TR foi inventada por conjectura editorial. Essa postura revela um princípio teológico profundo: a confiança na preservação divina do texto sagrado. A Igreja, ao longo dos séculos, não dependeu de reconstruções teóricas, mas de manuscritos reais, transmitidos, copiados, lidos e pregados em cada geração. O TR reflete precisamente essa confiança no Deus que, havendo inspirado a Palavra, também a preservou fielmente.
Assim, a questão das emendas conjecturais não é apenas técnica, mas espiritual e pastoral. Trata-se de reconhecer que Deus, em Sua providência, não deixou Sua Palavra se perder a ponto de precisarmos reconstruí-la sem qualquer testemunho histórico. A Escritura foi preservada ao longo dos séculos de forma concreta e verificável. Emendas conjecturais, por mais eruditas que sejam, representam uma tentativa arriscada de substituir a preservação divina pela criatividade humana. A resposta piedosa é permanecer firmes no texto transmitido pela história da Igreja, certos de que ele é fruto da mão cuidadosa do Senhor.
Por Rui Alexandre Dias,
Pastor da IBBV São Carlos, SP.
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