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Devemos continuar pregando João 5:2-4?

  • Foto do escritor: Rui Alexandre Dias
    Rui Alexandre Dias
  • 21 de out. de 2025
  • 4 min de leitura

A defesa de João 5.2-4 ("Há em Jerusalém, junto à Porta das Ovelhas, um tanque, chamado em hebraico Betezata, com cinco pórticos. Nestes jazia grande multidão de enfermos, cegos, coxos e paralíticos, esperando o movimento da água. Porquanto um anjo descia em certo tempo ao tanque, e agitava a água; e o primeiro que ali entrava, depois do movimento da água, sarava de qualquer enfermidade que tivesse.") pode ser construída com base nos seguintes pilares: o suporte da maioria dos manuscritos (a tradição textual bizantina, aqui chamada de Texto Tradicional da Igreja), o contexto da narrativa de João e o testemunho dos Pais da Igreja.


1. Suporte da Maioria dos Manuscritos (Texto Tradicional da Igreja)


A defesa tradicional desta passagem baseia-se fortemente na sua inclusão no Textus Receptus (TR) e na sua ampla presença na grande maioria dos manuscritos gregos existentes, conhecidos coletivamente como a Tradição Textual Bizantina ou Texto Tradicional da Igreja (Texto Receptus ).


Evidência Textual: O versículo 4 e a parte final do versículo 3 (que fala sobre os doentes "esperando o movimento da água") são encontrados na vasta maioria dos manuscritos minúsculos (o texto grego predominante a partir do século IX) e em diversos manuscritos unciais (letras maiúsculas mais antigas), como:


Códices Unciais: A (Alexandrinus), E (Basiliensis), F (Boreeli), G (Seidelianus I), H (Seidelianus II), K (Cyprius), L (Regius) e o terceiro corretor de C (Ephraemi Rescriptus, C³).


Manuscritos Minúsculos: A passagem é massivamente confirmada por minúsculos importantes como os da Família 1 (p. ex., 1, 118, 131, 209, que contêm um texto significativo) e da Família 13, e em muitos outros, incluindo 28, 565, 700, 892, 1009, 1071, 1195, 1216, 1230, 1241, 1242, 1253, 1344, 1365, 1546, 1646 e 2148.


Versões Antigas: A passagem também é bem atestada em muitas versões antigas, como a Vulgata Latina (Vulgata), o Latim Antigo (Vetus Latina), o Siríaco Antigo (como a Pesita - Peshitta) e o Copta Antigo (como a Versão Saidica).


Argumento: Para os defensores do Texto Tradicional da Igreja, a ampla distribuição geográfica e o grande número de manuscritos que contêm a passagem, cobrindo um longo período de tempo e diversas regiões da Igreja primitiva, são evidências fortes o suficiente para sua originalidade, ou, no mínimo, para considerá-la parte integrante da tradição joanina. Eles argumentam que a omissão nos manuscritos mais antigos (como P66, P75, Sinaiticus - Sinaiticus e Vaticanus - Vaticanus) poderia ser o resultado de uma cópia negligente ou de uma omissão acidental ou intencional (talvez por achar a descrição da lenda do anjo problemática), e não da não-existência do texto original.


2. Contexto Narrativo e Teológico


O contexto da cura no tanque de Betesda (em grego: Bethzata) sugere que a explicação nos versículos 3b-4 é crucial para a compreensão da reação dos judeus e da própria atitude do paralítico.


Necessidade de Explicação: A descrição da "multidão de enfermos" (plethos ton asthenounton) "esperando o movimento da água" (ekdechomenon ten tou hudatos kinesin) no final do versículo 3 e no versículo 4 fornece o motivo para o paralítico estar ali e a razão pela qual Jesus o confronta com a pergunta: "Queres ficar são?" (Theleis hugies genesthai). Sem esta explicação (a crença na cura pela agitação angelical da água), a narrativa é menos compreensível. O milagre de Jesus, que é independente da crença popular na água, é enfatizado por contrastar com essa crença.


Conexão Implícita: Mesmo que o versículo 4 seja omitido, o versículo 7 ainda pressupõe a crença da agitação da água: "Respondeu-lhe o enfermo: Senhor, não tenho ninguém que me ponha no tanque, quando a água é agitada (hotan tarachthe to hudor)..." Isso sugere que o versículo 4, ou a lenda que ele descreve, era a tradição de fundo que João estava registrando. Para alguns, João, como um escritor que frequentemente registra tradições judaicas (como o nome do tanque, "Betesda" - Bethzata), pode ter incluído a nota explicativa (v. 4) para o seu público gentio.


3. Testemunhos dos Pais da Igreja


Embora o testemunho patrístico para João 5.4 não seja tão antigo ou unânime quanto para outras passagens, existem evidências em autores que atestam a existência ou a crença subjacente à passagem.


Tertuliano (ca. 160-220 d.C.): Embora sua citação seja indireta e possa se referir apenas à tradição da agitação da água e não ao texto bíblico exato, ele faz uma referência à água agitada por um anjo em seu tratado De Baptismo (Sobre o Batismo), o que demonstra que a lenda ou a explicação textual já estava em circulação.


Crisóstomo (João Crisóstomo, ca. 347-407 d.C.): Ele comenta a passagem em suas Homilias sobre o Evangelho de João, mencionando a crença popular do anjo que descia e agitava a água, e usa o incidente como um contraste entre a cura de Jesus (mediante a Palavra) e a cura física pela água, valorizando a primeira. Embora a intenção dele seja teológica, sua menção aponta para a aceitação e uso da passagem.


Outros Pais: O versículo é citado ou conhecido por outros Pais da Igreja, como Ambrósio (Ambrosius) e Agostinho (Augustinus) no Ocidente, onde a passagem circulava amplamente na Vetus Latina e na Vulgata.


Em resumo, a defesa da autenticidade de João 5.2-4 repousa na aceitação do Texto Tradicional da Igreja (o texto da maioria dos manuscritos) como o mais fiel, na necessidade de uma explicação contextual para a atitude do enfermo e para a narrativa de João, e na menção da crença da agitação da água pelos Pais da Igreja no início do período cristão. A questão permanece uma das mais debatidas na Crítica Textual, mas o suporte do texto tradicional e do contexto narrativo é o cerne da argumentação para sua inclusão.

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Rui Dias
Rui Dias
08 de nov. de 2025
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