Uma Defesa da Leitura Tradicional de Marcos 2:17
- Rui Alexandre Dias

- 3 de nov. de 2025
- 3 min de leitura
A Bíblia é a Palavra de Deus inspirada e infalível, e a sua preservação ao longo dos séculos é um testemunho da fidelidade do Senhor. Em um momento onde as discussões sobre o texto bíblico se acentuam, é crucial reafirmarmos a solidez da tradição textual que nos legou a Palavra, especialmente como a encontramos em nossas Bíblias, como a amada Almeida Corrigida Fiel (ACF).
Um dos versículos frequentemente levantados em debates de crítica textual é Marcos 2:17. Jesus, ao responder aos escribas e fariseus sobre o porquê de comer com publicanos e pecadores, declara:
"καὶ ἀκούσας ὁ Ἰησοῦς λέγει αὐτοῖς, Οὐ χρείαν ἔχουσιν οἱ ἰσχύοντες ἰατροῦ, ἀλλ’ οἱ κακῶς ἔχοντες. οὐκ ἦλθον καλέσαι δικαίους, ἀλλὰ ἁμαρτωλοὺς εἰς μετάνοιαν."
"Os sãos não necessitam de médico, mas sim os que estão enfermos; eu não vim para chamar os justos, mas sim os pecadores ao arrependimento." (Marcos 2:17, ACF)
A frase que está em discussão é "ao arrependimento" (εἰς μετάνοιαν). Alguns críticos textuais modernos, seguindo edições que privilegiam códices mais antigos, argumentam que esta frase seria uma harmonização posterior, introduzida por copistas influenciados pelo texto de Lucas 5:32.
No entanto, a evidência textual maciça, tanto em número quanto em diversidade, nos leva a uma conclusão mais robusta: a manutenção da expressão em Marcos 2:17 é autêntica e original.
1. A Esmagadora Evidência Manuscrita e a Tradição Bizantina
A principal defesa da leitura que inclui "ao arrependimento" reside na vasta quantidade de manuscritos que a sustentam. É um fato inegável que a expressão "ao arrependimento" está presente em:
A Grande Maioria dos Manuscritos Gregos: A leitura que contém a frase está em mais de 90% dos manuscritos gregos existentes do Novo Testamento. Esses manuscritos pertencem à tradição conhecida como Texto Bizantino, que historicamente tem sido o texto da igreja por séculos e é a base do Textus Receptus (Texto Recebido), do qual deriva a Almeida Corrigida Fiel. A vasta quantidade de testemunhos do Texto Bizantino atesta unanimemente a presença de "εἰς μετάνοιαν" em Marcos 2:17.
Códices Unciais Importantes: Embora alguns manuscritos do século IV favoreçam a omissão, outros códices unciais (escritos em letras maiúsculas) importantes, como o Codex Alexandrinus (A), datado do século V, incluem a frase. O Codex A é um testemunho uncial de alta relevância que se alinha com a tradição textual do Texto Bizantino.
Testemunhos Latinos Primitivos: A expressão "ao arrependimento" é firmemente atestada nas tradições latinas. Ela se encontra nas primeiras versões da Vetus Latina (Versões Latinas Antigas, que remontam ao século II) e na Vulgata de Jerônimo (final do século IV). O fato de as traduções mais antigas, especialmente a Latina, já a incluírem, demonstra que a leitura completa estava em circulação e era reconhecida como autêntica muito cedo na história da Igreja.
2. A Coerência Teológica e a Natureza do Chamado de Cristo
A sugestão de que a frase é uma "harmonização" com Lucas 5:32 é, na verdade, uma simplificação que ignora a coerência doutrinária. A autenticidade de εἰς μετάνοιαν em Marcos 2:17 não é apenas uma questão de contagem de manuscritos, mas de fidelidade à mensagem do Evangelho:
Marcos Anuncia o Arrependimento: O tema do arrependimento é fundamental no Evangelho de Marcos desde o início. O próprio Jesus inicia seu ministério dizendo: "O tempo está cumprido, e o reino de Deus está próximo. Arrependei-vos e crede no evangelho" (Mc 1:15). Seria estranho que o propósito central do Seu ministério fosse misteriosamente omitido no ponto alto da Sua missão (chamar os pecadores).
O Propósito Transformador da Missão: A chamada de Jesus aos pecadores não é um convite social passivo. O ministério dEle tem um objetivo salvífico e transformador. A inclusão de "ao arrependimento" (εἰς μετάνοιαν) define a natureza da Sua missão. Ele não chamou os pecadores para permanecerem em seus pecados, mas sim para que mudassem de mente e de vida. A omissão da frase enfraquece o propósito evangelístico e a urgência do chamado de Cristo.
Em conclusão, enquanto um pequeno grupo de manuscritos mais antigos omite a frase, a esmagadora maioria da evidência textual (mais de 90%), representada pela tradição do Texto Bizantino e sustentada por testemunhos latinos primitivos, confirma a leitura completa. Diante disso, afirmamos a autenticidade e a inspiração da frase: "eu não vim para chamar os justos, mas sim os pecadores ao arrependimento." Esta é a Palavra de Deus que recebemos e à qual nos apegamos.
Rui Alexandre Dias
Pastor da IBBV, São Carlos SP.
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